Um Conto Fantástico em homenagem ao 2 de Fevereiro.

Um Conto Fantástico em homenagem ao 2 de Fevereiro.

No passado escrevi um conto fantástico – que veio assim, meio sonho, meio delírio – e resolvi reedita-lo e publicar de novo 🙂

Fiquem a vontade para deixar seus comentários, se gostou ou não, abaixo. Será um prazer saber sua opinião.

 

Nada, além do azul do mar

 

Me habéis preguntado qué hila el crustáceo entre

sus patas de oro y os respondo: El mar lo sabe.

¿Me decís qué espera la ascidia en su campanatransparente?

¿Qué espera?Yo os digo, espera como vosotros el tiempo.

Los enigmas de Pablo Neruda

 

O primeiro som que chegou aos ouvidos de Jordi naquela manhã de domingo, ao despertar de um sonho intenso, foi o vai e vem tímido das ondas.  Continuou de olhos fechados e não ligou muito: achou que ainda estava dormindo. Permaneceu imóvel, em descanso absoluto, para logo se fundir em uma dessas sonolências ligeiras que costumam antecipar um sono longo e profundo.

Minutos depois, despertou num sobressalto, ofegante. Sentou na cama e olhou ao redor.  As janelas fechadas. O quarto completamente escuro e abafado. Era difícil de respirar. Consultou o celular num ato reflexo e ficou desconcertado: havia perdido completamente a hora. Chegaria atrasado no hotel do qual trabalhava como camareiro. Ouvia-se o vento lá fora. Era inverno em Barcelona.

Da segunda vez em que Jordi escutou aquele som foi enquanto preparava um pa amb tomaca e o caffe latte. Parou tudo que estava fazendo e se concentrou somente em escutar. Era a estranha balada salgada. O silvo do vento marinho, o rugir sutil do seu movimento, água contra as pedras, gaivotas e as ondas que iam e vinham. Aquilo não era possível: morava no quinto andar, perto das colinas; pelo menos oito quilômetros do Mediterrâneo.

Por um minuto, achou que o som vinha do apartamento vizinho. Deveria ser um daqueles CDs chatissímos com barulhos da natureza que os fãs de Yoga tanto gostam. Não tinha muito tempo para pensar naquilo. Poderia perder o emprego por aquele atraso. Foi a passos longos até o banheiro e lavou o rosto. Espiou com pressa o próprio vulto e flagrou uma expressão vazia no reflexo.

O banheiro era pequeno e revestido com pastilhas brancas. Da janela entrava um faixo de luz. Abriu o chuveiro e fechou a cortina. Na estampa, desenhos coloridos de golfinhos, conchas e sereias. Enquanto ensaboava a cabeça aconteceu outro acontecimento estranho e dessa vez não poderia ignorar.

Jordi foi reconhecendo, aos poucos, um cheiro bem familiar, como trazido pela brisa leste. Era um odor intenso e inconfundível … e chegou potente como um soco no estomago. Um aroma cor azul, misterioso, oceânico,  ancestral e profundo. E Jordi podia até jurar: naquele instante estava na beira do Mediterrâneo.

O cheiro durou apenas alguns segundos. E no entanto, foi um destes segundos inexplicáveis que abarcam milhões de dias, meses e anos. Aquele perfume despertou lembranças e Jordi ficou feliz: recordou verões praianos da infância, o cais cinza de Alicante, as casinhas brancas de Cadaqués e as águas verdes de Barceloneta.

Deixou cair a toalha com dedos fatigados. Nem ele sabia porquê. O sol havia se escondido atrás das nuvens e a luz do banheiro instável e tremula. Olhou novamente no espelho e percebeu cada detalhe do seu rosto com clareza. Logo depois, Jordi se lembrou perfeitamente do estranho sonho daquela noite.

Jordi estava num pequeno barco, rodeado de azul. À deriva. Em um sem fim de mar que coloria o horizonte. Apareciam – como num sonho dentro do sonho – outros barcos surreais, todos azuis e brancos, escondidos pela bruma da noite marinha. Havia pescadores de pele negra e olhos ainda mais escuros como gotas de metal, homens, mulheres, crianças da espuma, do vento e da areia. Elas apareceram do alto das ondas, nascidos do céu sem nuvens, e pareciam carregar dores, amores, desassossegos.

Ao mirar aquele azul em absurdo de beleza, Jordi se surpreendeu. Cresciam flores. No mar. Brancas. Rosas. Cravos. Violetas. Lírios. Jasmins. Jogavam com as cores do universo e nasciam aos montes sobre a espuma estrelada. De uma onda delirante, desprendiam peixes voadores, arcos alucinados, gotas de safiras; e Jordi percebeu que cada uma daquelas minúsculas gotas continha toda imensidão dos segredos do oceano. O vento soprava forte e o oceano do sonho era de uma imóvel solidão cheia de vida.

E aquilo tudo foi lhe trazendo sentimentos, imagens, lugares. África, reis escravizados, arrancados da sua terra, navios negreiros, o chicote de sotaque português, mãos negras, algodão branco, cheiro da cana de açúcar, de engenhos, kizumbas, capoeiras, quilombos … E o azul do mar da Bahia.

Foi então que ele ouviu o canto da sereia. E ele que dizia: “O oceano é um santuário, Jordi, que sussurra o infinito no quebrar das ondas. O amor.  Amar. O mar.”

“Quem é você”, perguntou ele.

“Sou o braço de areia que rodeia o mundo, o reflexo da água clara, o cosmos que flutua, onde nasce o sol e a lua. Sou o segredo das medusas e das tainhas. Sou a mãe, deusa e rainha. Sou teu cais, meu filho, e tú, que serpenteia destinos, virá até mim, como o rio que vem caminho abaixo até o mar”.

Jordi sentiu necessidade de escutar mais daquelas palavras. Queria em apalpar intimidades marinhas. Estava enamorado do azul. Por isso, pulou do barco e mergulhou no mistério. Ser era dissolver-se naquele abraço submergido e voltar à água primordial do oceano materno. Naquele momento de sonho, ambicionava unicamente o embalo das ondas, o silêncio dos corais, o bater ritmado do seu próprio coração.

“Grandioso mar, quem é você?”

***

Uma forte sensação de mareio o aterrizou bruscamente na realidade. O devaneio durou alguns instantes. Caberia mais uma vez naqueles segundos o tempo de uma eternidade? Jordi estava completamente atônito. Como era possível que um rapaz catalão, que nunca saiu da Espanha, sonhasse tão vivamente com uma realidade alheia? O que era aquela nostalgia louca de lugares que nunca havia estado e de coisas que nunca havia vivido?

Sentou na privada, ainda tonto, e acendeu um cigarro, pensativo. Havia esquecido completamente das obrigações. Lá pela quinta baforada, indagou o que seria aquilo que vibrava no seu peito. Acreditou, por um momento, padecer de febre interna. O suor intenso, o grave silêncio e o tremor nas mãos denunciavam dores oceânicas.

Olhou pela janela, o céu tenso, sem nuvens. Mirou o relógio com angustia. Os segundos e o pulsar do seu sangue pareciam marcar o mesmo ritmo. Então ele percebeu. Aqueles som misterioso não vinham do exterior … e sim, do centro de sua caixa torácica. Deu-se conta do espanto: o enjoo que padecia eram ondas dentro de si.

Então, como se sonho ganhasse nova vida, Jordi ouviu tambores exóticos, fantásticos, que soavam alto, num ritmo frenético, alucinante. Seria aquilo mais um delírio ou o pulsar acelerado do seu próprio coração incrédulo?

Sentia que as águas começavam a jorrar forte dentro dele. Ondas, mares, algas, correntezas, moreias, grutas, cardumes, cachoeiras, rochas, baleias, icebergs, estrelas-do-mar, tormentas, tempestades, tubarões, corais, maremotos, geleiras derretendo, tsunamis de si mesmo.  Sentiu-se um escafandrista de suas próprias profundidades.

Invadia a estranha comoção, uma sensação realmente curiosa, como se o corpo tivesse perdido peso e sentidos fugissem mais além das lonjuras do subconsciente. Ouviu nitidamente a voz da sereia do sonho.

“Divino mar. Quem é você?”, perguntou ela com seu canto de mel.

Sentiu que voltava a consciência. Tentou caminhar para o quarto, mexer os pés; mas já não havia pés, só areia espalhada pelo chão. Olhou para mãos, mas não existia dedos, e sim, longas conchas. Seus cabelo, algas; os olhos, peixes dourados; os ossos, arrecifes; as pernas, cavalos-marinhos; a boca, tubarão. E o coração impulsionava ondas infinitas. Sentiu religar o nó com a intima realidade da qual havia brutalmente se separado ao nascer.  Antes que Jordi entrasse no profundo transe que caracteriza o contanto com a divindade africana – o santo que baixa e entra em contato com direto com seus filhos  – pôde ouvir o resquício da sua voz respondendo a pergunta da sereia:

“Quem é o mar, minha mãe?”

“O mar sou eu.”

***

Eram as 11:30 em Barcelona. Enquanto isso – naquela mesma hora, do outro lado do Atlântico; seis horas antes no fuso relativo do tempo – o sol começava a iluminar o dia dois de fevereiro no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, Bahia. E Yemanjá já realizava o seu chamado de areia, espuma e sal. Havia chegado o dia de celebrar junto aos seus filhos que reaprenderam ouvir a profunda voz do mar.

blogger-image-1357942403

 

blogger-image-871272580 blogger-image-1287477467

 

 

 

Todas as imagens são de uma das minhas fotografas favoritas: Elena Kalis

Leave A Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *