A viagem interior por Luis Carlos Lisboa

“O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa – aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa – não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.”

 

– Luis Carlos Lisboa.

 

Preciosa citação encontrada no sempre excelente e recomendadíssimo blog Odepórica.

 

Trilha pelas montanhas romenas, 20016. Foto: Davi Carneiro.

O ato de viajar em um sentido mais profundo

Eu conheci Esteve Humet, psicólogo especialista em meditação, na cidade de Granollers, ao nordeste da Catalunha. Naquela época, eu fazia parte do curso La Biblioteca como Espejo1 ministrado pelo escritor argentino Jorge Zentner, um autêntico amigo e mestre. “Neste final de semana haverá uma palestra sobre Camino hacia el Silencio2, o novo livro do Humet”, disse Jorge com o seu sotaque portenho que me soa tão bem. “Será em um lugar especial chamado El Xiprer3. Vamos?”

Chegamos ao local após uma rápida viagem de trem. Humet era um senhor de uns sessenta anos, magrinho, barba branca e sorriso fácil. Teve o privilégio de conviver com importantes mestres espirituais: o monge beneditino Estanislau Llopard, que viveu como eremita em Montserrat; e o padre jesuíta Tony de Mello, com quem conviveu na Índia.

“Meditar é aprender a viver em profundidade, não somente durante o ato em si, mas durante todo o dia”, disse ele em um momento dado. “Este silêncio estaria mais bem relacionado com o Ser. É um transfundo mais além dos pensamentos ou sensações porém não necessariamente incompatível com eles. Podemos estar em profundo silêncio ainda que pensemos, falemos ou façamos qualquer outra atividade”, explicou antes de conduzir a meditação coletiva.

No final do encontro, Humet me recebeu de forma atenta e carinhosa. Dialogámos rapidamente sobre práticas contemplativas e suas idas à Índia.Em um dado momento confessei que viajar vinha sendo uma espécie de caminho de autoconhecimento para mim. Esteve sorriu e concordou com a possibilidade. Continuámos conversando até a hora que o trem partiu de volta para Barcelona.

“Meditar é aprender a viver em profundidade, não somente durante a meditação, mas durante todo o dia. odemos estar em profundo silêncio ainda que pensemos, falemos ou façamos qualquer outra atividade”

Aquele havia sido um encontro propício. Eu havia, nesta mesma época, me aproximado da meditação Zen Budista. “Quando o mental se aquieta, me refiro a pequena mente discursiva, não há o que defender ou justificar ou pretender, só existe a quietude e a intimidade”, disse a sensei Anik Billard durante um Mondo4. “Quando nos deixamos arrastar de forma automática pelas identificações, podemos tentar voltar a este lugar de quietude. Estar atentos às dramaticidade do eu, deixa-lo descansar … dissolver”, complementou.

“Viajar vem sendo um caminho de autoconhecimento para mim”, confessei num determinado momento. Ele sorriu e concordou com a possibilidade. Seguimos conversando até a hora que o trem partiu de volta para Barcelona.

Foi partir destes encontros – Jorge, Esteve, Anik – que comecei a dedicar uma pequena parte do meu dia ao cultivo do silêncio interior e à meditação; não apenas na rotina cotidiana, mas também durante as minhas viagens. E esta ação vem ajudando a me aproximar de uma forma mais atenta e madura do ato de viajar.

É um engano pensar que podemos achar algo num país estrangeiro que não possamos encontrar na nossa própria casa; tudo o que precisamos esta aqui e agora. Sidarta Gautama, por exemplo, experimentou toda a realidade que necessitava sentado em um único lugar. Ninguém se torna, infelizmente, uma pessoa mais completa e feliz apenas por colocar uma mochila nas costas. Podemos viajar o mundo em busca do que é belo, como bem disse Ralph W. Emerson, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos. A viagem é como a vida; muito mais complexa do que a hipérbole idealizada e comercializável que muitas agências e blogues de viagens tentam nos fazer acreditar e engolir .

Ninguém se torna, infelizmente, uma pessoa mais completa e feliz apenas por colocar uma mochila nas costas. Podemos viajar o mundo em busca do que é belo, como bem disse Ralph W. Emerson, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos.

Viajar para esquecer problemas ou em busca de algo é como aquela parábola sufi na qual um homem santo está buscando, no chão, as chaves que havia perdido:

– Mullá, tem certeza que deixou cair por aqui? – perguntou um jovem.

– Não – respondeu o santo – A perdi perto da minha casa.

– Então, porque o senhor está buscando neste lugar?

– Ora, porque aqui há muito mais luz!

Mas, ainda assim … mesmo com a importância da contemplação, o deslocamento continua sendo uma escola e tanto. É a minha maneira, por exemplo, de sair da zona de conforto e de colocar a minha Salvador natal em perspectiva. É uma das formas de relembrar a mim mesmo a importância de estar sempre alerta; de perceber, na prática, que não há argentinos e brasileiros ou americanos e russos; somos todos humanos, acima de tudo. Viajar me ensina a realidade relativa das coisas.

O movimento físico, em si, não é o fundamental. Porém, ele pode ser um catalisador na medida em que ilumina aspectos antes insuspeitáveis de nós mesmos e, como consequência, do mundo exterior. O ato de viajar não é a fonte desta sabedoria, mas o seu combustível. Aquilo o que busco já está dentro de mim. E as viagens são os instrumentos que ajudam a dar-me conta disto.

O Buda encontrou tudo o que precisava sentando-se, sereno, sob a Árvore Bodhi5. Porém, inclusive ele, precisou viajar durante seis anos para chegar a esse ponto de lucidez e consciência. “Para viajar basta existir”, diria Fernando Pessoa. Mas a grande jornada é reconhecer onde realmente estamos durante todo este tempo. Perceber que, antes mesmo de partir, já haveremos chegado.

Como havia dito Esteve em uma das frases que mais me marcou naquele breve encontro de silêncio e palavras: “O Ego não realizará nunca: já exercemos na plenitude. O coração da prática é ir eliminando as ilusões e enxergar a realidade de uma maneira mais direta e clara. Não é preciso fazer nada para isto, apenas dar-se conta desta dádiva”. Este é, para mim, um belo presente e nossa maior pátria.

 

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1 “A Biblioteca como Espelho” em espanhol. Trata-se de uma oficina de autoconhecimento destinada para os amantes dos livros; a cada sessão liámos um conto – Tchecov, Borges, Mishima, Casares, Lispector e muitos outros – porém, essa era apenas uma boa “desculpa”, por assim dizer, para conversamos sobre nós mesmos.

2 “Caminho até o Silêncio”.

3 El Xiprer é uma entidade solidária em Granollers que ajuda pessoas carentes e em situações desfavorecidas.

4 Sessão de perguntas e respostas entre os alunos e um monge zen.

5 A Árvore Bodhi foi a árvore debaixo da qual Sidarta Gautama, o buda histórico, alcançou a iluminação.

 

 

Todas as fotos que ilustram o texto são do talentoso fotógrafo Alexandre Furcolin Filho.

Vale a pena visitar a página dele e acompanhar o seu belíssimo trabalho. Recomendo!

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A viagem como um produto perfeito

Não acredite nas propagandas das agências ou no produto perfeito que muitos blogs de viagens tentam te fazer engolir. Viajar não é a solução dos seus problemas e, muito menos, a  coisa mais importante do mundo. Não é o único investimento que você faz que te deixa mais rico; comprar livros também, só para dar outro exemplo. Ninguém se torna, infelizmente, uma pessoa melhor, mais completa, feliz e madura depois de colocar uma mochila nas costas. Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, como bem disse Ralph W. Emerson, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos. A viagem é como a vida; muito mais complexa do que esta hipérbole idealizada, rasa e comercializável.

 

É um engano achar que podemos encontrar algo em um país estrangeiro que não possamos encontrar na nossa própria casa; tudo o que precisamos esta aqui e agora. Sidarta Gautama, por exemplo, experimentou toda a realidade que ele necessitava sentado em um único lugar. Viajar para esquecer os problemas ou em busca de algo é como aquela parábola sufi onde o homem santo esta agachado buscando, no chão, as chaves que havia perdido: 

– Mullá, tem certeza que deixou cair suas chaves por aqui? – perguntou o jovem que o ajudava. 

– Não. – respondeu o santo – A perdi defronte a minha casa. 

– Então, porque o senhor está buscando neste lugar?

– Ora, porque aqui há muito mais luz!

 É um engano achar que podemos encontrar algo em um país estrangeiro que não possamos encontrar na nossa própria casa; tudo o que precisamos esta aqui e agora. Sidarta Gautama, por exemplo, experimentou toda a realidade que ele necessitava sentado em um único lugar.

Porém, ainda assim, viajar continua sendo, para mim, algo muito importante. É a minha maneira de olhar pela janela, sair do meu quarto e colocar a minha Salvador natal em perspectiva. É a forma que encontrei de relembrar a mim mesmo a importância de estar sempre alerta; ou de  perceber, na prática, que não existem fronteiras, elas são apenas criações da complexa mente humana; ou que não há, por exemplo, brasileiros e argentinos, somos todos humanos, acima de tudo. Viajar pode, definitivamente, aportar um tipo de sabedoria especial para aqueles que estão abertos a ela. Mas, não porque viajar seja a fonte deste conhecimento, mas, sim, o seu combustível. O movimento fisico em si não é o fundamental, mas ele pode ser o catalisador na medida que me permite entrar em contato com aspectos antes insuspeitáveis de mim mesmo e, como consequência, do mundo exterior. Tudo o que busco já está dentro de mim. E as viagens ajudam a dar-me conta disto.  

Sob o céu enfarinhado de estrelas

A noite no deserto caiu serena e tranquila. Estávamos no Saara a uns vinte quilômetros de M’Hamid, a última cidade antes do deserto, quase na fronteira com a Argélia. Eram aproximadamente às 18:30 e a escuridão tomou conta de tudo, impiedosamente. Lahcen, o nosso guia, armou a tenda perto de uma duna de onde brotavam alguns galhos retorcidos.

Eu sentia frio. A areia gelada e o vento faziam a sensação térmica despencar … mas ninguém parecia muito ligar para isso. Tínhamos acabado de jantar uma super salada marroquina, cheia de cominho e temperos exóticos. Como Mohamed, o cozinheiro da caravana, conseguia preparar uma salada tão fresca e saborosa em pleno deserto era para mim uma coisa tão enigmática como os mistérios das Mil e uma Noite.

Passámos o dia atravessando o Saara, acompanhados de Lahcen e sua comitiva berbere. Aquela experiência foi como comprar uma passagem direta para outra dimensão. Tudo em volta era incrivelmente vermelho e árido. Quilômetros de securas, dunas, poeiras e redemoinhos de resto de mundo. Caminhei a manhã inteira com a sensação de estar em Marte. Só faltava o robozinho da Nasa, o Curiosity, sair vagaroso detrás de um daqueles amontoados de areia.

Anoitecia naquele momento. Me encontrava deitado num grande tapete berbere posicionado estrategicamente à beira da fogueira. Os olhos estavam fixos no céu. O mar de estrelas que se abria era algo difícil de descrever. Surreal como um quadro do Dali e tão real como um sonho bom. Com certeza, o firmamento mais estrelado que já vi na vida.

Dei até uma de astrônomo:

“Olha lá gente, aquela ali é a Ursa Maior, a constelação dos viajantes …”

“Onde?”

“Ali, olha só … A primeira estrela forma o olho, a segunda o ouvido, a terceira a pata …”

“Nossa! É mesmo … e aquela ali, parece um camelo …”

Ficámos ao ar livre, na escuridão total, admirando a infinidade de pontos e luzes. Para completar o clima, os berberes tocavam algumas canções em volta da fogueira com instrumentos improvisados. Apesar da letra incompreensível, a melodia e o ritmo nos envolvia. Perguntei ao Lahcen sobre o que falam as músicas. Ele respondeu: “Muitas coisas… sobre a vida, o deserto, camelos e amores …”

 Passámos o dia atravessando o Saara, acompanhados de Lahcen e sua comitiva berbere. Aquela experiência foi como comprar uma passagem direta para outra dimensão. Tudo em volta era incrivelmente vermelho e árido. Quilômetros de securas, dunas, poeiras e redemoinhos de resto de mundo. Caminhei a manhã inteira com a sensação de estar em Marte.

Dei uma olhada ao redor e não conseguia enxergar nada. A fogueira era a única luz que desafiava aquele oceano de trevas. Tudo em volta era escuridão, silêncio e ausência. Acima de nós, a lua brilhava fina e majestosa, tal qual o símbolo do Islã.

Sob o olhar atento da Ursa Maior, lembrei-me da saída de M’hamid, dos primeiros passos na areia, da “cavalgada” no dromedário, do pôr do sol em meio às dunas e das primeiras palavras de Lahcen:

“Boys, the experience in the desert is simple. Is live the essential things. You have to hear the sound of the wind, put your foot in the sand, fell the desert, fell yourself … So breath and take your time!1

Me lembrei de um poema de Vinicius de Morais, “Olha aqui Mr. Buster”, que é dedicado a um americano rico. Mr. Buster não podia compreender como é que o poeta, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar à “Latin America”. O poema prossegue assim:

“Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo

Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.

Está muito certo que o Sr. tenha no quintal de sua casa em Hollywood

Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia

Está muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu Estado

e sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.

Mas me diga uma coisa, Mr. Buster

Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:

O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?

O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?

O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”

 

Me permiti a ousadia de acrescentar alguns versos aos trechos do poetinha:

Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:

O Sr. sabe lá o que é admirar um céu enfarinhado de estrelas?

O Sr. sabe lá o que é ver um pôr do sol em cima de uma duna de areia?

O Sr. sabe lá o que é caminhar escutando somente sua respiração?

O Sr. sabe lá qual o gosto da salada do Mohamed?

 

Este encontro com o deserto, durante a minha adolescência, foi decisivo na minha escolha pelo Jornalismo de Viagens. Como diria Lahcen, sem dúvidas a pessoa mais interessante que eu conheci naquela viagem:

“Mashi mushkil!”2 Sem pressa. Tome o seu tempo. Respire. Ouça o som do vento e sinta o deserto. Viva o deserto e as coisas simples da vida.”

 

1 Meninos, a experiência no deserto é simples. É viver as coisas essenciais. Você tem que escutar o som do vento, colocar os pés na areia, sentir o deserto, sentir a si mesmo … então respire e tome o seu tempo!
2 Não tem problema em árabe.