A estrada e o menino

Acabei cochilando em algum momento do trajeto. O ônibus cruzava a cordilheira dos Atlas e eu ia num assento da classe mais barata, com pouco espaço, pegado na janela e sem conseguir esticar direito as pernas.

Era domingo pela tarde. O caminho serpenteava montanha acima; íngreme e perigoso. O ônibus pingava a cada dez minutos; de vilarejo em vilarejo. Éramos poucos passageiros. Lembro-me de uma senhora de rosto enrugado e mãos calejadas; lembro-me de homens barbudos empapados de suor; lembro-me das mulheres berberes e da confusão criada por um rapaz que subiu acompanhado de pelo menos uma dúzia de galinhas.

Pela janela, viam-se nuvens grandes que se alastravam lentamente. Havia uma certa luz dominical no ar e o céu, muito alto e despejado, era de um azul profundo. O sol iluminava as montanhas ao redor e elas pareciam brilhar. Fazia muito calor. Pus o fone de ouvido e consegui abrir uma fresta na janela. Adormeci encostado na poltrona vizinha.

Quando acordei, um novo passageiro havia sentado ao meu lado: devia ter uns sete anos, era moreno, magrinho, e me olhava com uma cara entre a timidez e a curiosidade. A mãe estava no banco detrás e ia distribuindo um pacote de biscoitos entre os irmãos, quatro no total; todos mais novos do que ele. Cada um teve direito ao mesmo número de guloseimas.

Meu vizinho ficou parado por alguns instantes, me mirando; os olhos grandes e escuros, exatamente como duas bolas de gude; depois pegou uma bolacha e mastigou com vontade. Fiz positivo e dei um sorriso. Ele continuou me encarando, meio receoso, até que pareceu ganhar coragem, esticou a mão e me ofereceu um dos biscoitos que lhe cabia.

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Agradeci, surpreso; e, como retribuição, puxei a câmera e fiz um registro. Ele gostou. Quis outra fotografia. A mãe, que vestia um turbante azul, o repreendeu em árabe. Fiz um gesto com a cabeça: “não tem problema, ele não incomoda”. E, pouco a pouco, o garoto foi deixando a timidez; quis ver todos as minhas fotos, fez pose e careta, tirou retrato meu, da mãe e dos irmãos. Durante a próxima hora, eu e aquele menino fomos melhores amigos, sem ao menos dizer uma palavra em comum.

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Viajar é colocar em prova a nossa confiança no ser humano. Somos obrigados a acreditar na honestidade de pessoas que não conhecemos; estar sujeito à sua amabilidade e decência, muitas vezes sem o idioma ou qualquer outro traço cultural em comum. E, muitas vezes, nós, os viajantes, somos e menosprezados e enganados. A viagem, assim como a vida, está repleta de mentiras e ilusões.

Mas, ao mesmo tempo, o ato de viajar é uma espécie de otimismo em movimento. O viajante segue em frente. Se hospeda na casa de estrangeiros. Vive entre eles. Come da sua comida. Escuta das suas opiniões. Os viajantes são otimistas por natureza, pois caso contrário, não sairiam de casa. O deslocamento implica esperança e seguir viagem, por si só, é renovar nossa crença nas qualidades humanas.

O pacote não era grande, acabou rapidinho; mas o menino havia guardado a última bolacha. Ele me olhou de canto de olho e fingiu que ia comer de uma só mordida. Porém, sorrindo, acabou oferecendo-me novamente. Aceitei o ato generoso; não sem antes repartir pela metade. Não haviam diferenças entre aquele que dava, aquele que recebia e o presente propriamente dito. Comemos juntos o último pedaço.

O ato de viajar é uma espécie de otimismo em movimento. O viajante segue em frente. Se hospeda na casa de estrangeiros. Vive entre eles. Come da sua comida. Escuta das suas opiniões. Os viajantes são otimistas por natureza, pois caso contrário, não sairiam de casa. O deslocamento implica esperança e seguir viagem, por si só, é renovar nossa crença nas qualidades humanas.

O ônibus se deteve em um dos muitos vilarejos ao pé da montanha. Era o momento da família descer. A mãe se levantou, trocamos olhares e ela disse algo, desta vez com a voz cheia e quente. O menino ficou por último, levantámos-nos e abraçámo-nos. Uma luz suave cobria o aglomerado de casas pobres feitas de terra batida. Eles seguiram lentamente por um caminho de areia e pó. O motorista descreveu uma curva e começamos a sacudir montanha acima. E eu fiquei a agitar a mão até que o ônibus voltasse à estrada em direção à Marrakech.

 

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Bisou, mon ami, Bisou

Eu estava esperando para entrar na Sinagoga do bairro judio de Fez quando ela se aproximou cheia de curiosidade. Era uma linda menina marroquina chamada Kenza.

– Você pode tirar uma fotografia minha? – perguntou em francês e, sem perder tempo, já foi fazendo a pose e distribuindo sorrisos.

Kenza tinha aproximadamente sete anos, se comunicava com uma inflexão segura; mexia os lábios finos, abrindo bem a boca ao falar e encarando o rosto do interlocutor. O seu cabelo era castanho e um pouco ondulado; agitava os pequenos olhos negros de maneira atenta, demonstrando o seu entusiasmo; tinha os dois dentinhos da frente separados e isso evidenciava ainda mais o seu sorriso. Sua pele era bem morena, queimada pelo sol, como uma autêntica brasileirinha.

Havia um grupo de meninas com ela, todas maiores, algumas vestidas com roupas típicas; ficaram nos observando a distância, com expressões envergonhadas e tímidas. Porém, Kenza, a mais sabida de todas, ainda tinha um último pedido antes de se despedir:

– Bisou, mon ami. Bisou.1

E me deu dois beijos na bochecha.

Fomos convidados a entrar e visitámos a Sinagoga ao lado do rabino … mas, eu não consegui prestar muita atenção. É que o meu coração tinha ficado do lado de fora, derretido, sob o efeito dos beijos daquela pequena menina marroquina.

 

 

 

1 “Beijo, meu amigo. Beijo”, em francês.

 

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