A estrada e o menino

Acabei cochilando em algum momento do trajeto. O ônibus cruzava a cordilheira dos Atlas e eu ia num assento da classe mais barata, com pouco espaço, pegado na janela e sem conseguir esticar direito as pernas.

Era domingo pela tarde. O caminho serpenteava montanha acima; íngreme e perigoso. O ônibus pingava a cada dez minutos; de vilarejo em vilarejo. Éramos poucos passageiros. Lembro-me de uma senhora de rosto enrugado e mãos calejadas; lembro-me de homens barbudos empapados de suor; lembro-me das mulheres berberes e da confusão criada por um rapaz que subiu acompanhado de pelo menos uma dúzia de galinhas.

Pela janela, viam-se nuvens grandes que se alastravam lentamente. Havia uma certa luz dominical no ar e o céu, muito alto e despejado, era de um azul profundo. O sol iluminava as montanhas ao redor e elas pareciam brilhar. Fazia muito calor. Pus o fone de ouvido e consegui abrir uma fresta na janela. Adormeci encostado na poltrona vizinha.

Quando acordei, um novo passageiro havia sentado ao meu lado: devia ter uns sete anos, era moreno, magrinho, e me olhava com uma cara entre a timidez e a curiosidade. A mãe estava no banco detrás e ia distribuindo um pacote de biscoitos entre os irmãos, quatro no total; todos mais novos do que ele. Cada um teve direito ao mesmo número de guloseimas.

Meu vizinho ficou parado por alguns instantes, me mirando; os olhos grandes e escuros, exatamente como duas bolas de gude; depois pegou uma bolacha e mastigou com vontade. Fiz positivo e dei um sorriso. Ele continuou me encarando, meio receoso, até que pareceu ganhar coragem, esticou a mão e me ofereceu um dos biscoitos que lhe cabia.

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Agradeci, surpreso; e, como retribuição, puxei a câmera e fiz um registro. Ele gostou. Quis outra fotografia. A mãe, que vestia um turbante azul, o repreendeu em árabe. Fiz um gesto com a cabeça: “não tem problema, ele não incomoda”. E, pouco a pouco, o garoto foi deixando a timidez; quis ver todos as minhas fotos, fez pose e careta, tirou retrato meu, da mãe e dos irmãos. Durante a próxima hora, eu e aquele menino fomos melhores amigos, sem ao menos dizer uma palavra em comum.

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Viajar é colocar em prova a nossa confiança no ser humano. Somos obrigados a acreditar na honestidade de pessoas que não conhecemos; estar sujeito à sua amabilidade e decência, muitas vezes sem o idioma ou qualquer outro traço cultural em comum. E, muitas vezes, nós, os viajantes, somos e menosprezados e enganados. A viagem, assim como a vida, está repleta de mentiras e ilusões.

Mas, ao mesmo tempo, o ato de viajar é uma espécie de otimismo em movimento. O viajante segue em frente. Se hospeda na casa de estrangeiros. Vive entre eles. Come da sua comida. Escuta das suas opiniões. Os viajantes são otimistas por natureza, pois caso contrário, não sairiam de casa. O deslocamento implica esperança e seguir viagem, por si só, é renovar nossa crença nas qualidades humanas.

O pacote não era grande, acabou rapidinho; mas o menino havia guardado a última bolacha. Ele me olhou de canto de olho e fingiu que ia comer de uma só mordida. Porém, sorrindo, acabou oferecendo-me novamente. Aceitei o ato generoso; não sem antes repartir pela metade. Não haviam diferenças entre aquele que dava, aquele que recebia e o presente propriamente dito. Comemos juntos o último pedaço.

O ato de viajar é uma espécie de otimismo em movimento. O viajante segue em frente. Se hospeda na casa de estrangeiros. Vive entre eles. Come da sua comida. Escuta das suas opiniões. Os viajantes são otimistas por natureza, pois caso contrário, não sairiam de casa. O deslocamento implica esperança e seguir viagem, por si só, é renovar nossa crença nas qualidades humanas.

O ônibus se deteve em um dos muitos vilarejos ao pé da montanha. Era o momento da família descer. A mãe se levantou, trocamos olhares e ela disse algo, desta vez com a voz cheia e quente. O menino ficou por último, levantámos-nos e abraçámo-nos. Uma luz suave cobria o aglomerado de casas pobres feitas de terra batida. Eles seguiram lentamente por um caminho de areia e pó. O motorista descreveu uma curva e começamos a sacudir montanha acima. E eu fiquei a agitar a mão até que o ônibus voltasse à estrada em direção à Marrakech.

 

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O ato de viajar em um sentido mais profundo

Eu conheci Esteve Humet, psicólogo especialista em meditação, na cidade de Granollers, ao nordeste da Catalunha. Naquela época, eu fazia parte do curso La Biblioteca como Espejo1 ministrado pelo escritor argentino Jorge Zentner, um autêntico amigo e mestre. “Neste final de semana haverá uma palestra sobre Camino hacia el Silencio2, o novo livro do Humet”, disse Jorge com o seu sotaque portenho que me soa tão bem. “Será em um lugar especial chamado El Xiprer3. Vamos?”

Chegamos ao local após uma rápida viagem de trem. Humet era um senhor de uns sessenta anos, magrinho, barba branca e sorriso fácil. Teve o privilégio de conviver com importantes mestres espirituais: o monge beneditino Estanislau Llopard, que viveu como eremita em Montserrat; e o padre jesuíta Tony de Mello, com quem conviveu na Índia.

“Meditar é aprender a viver em profundidade, não somente durante o ato em si, mas durante todo o dia”, disse ele em um momento dado. “Este silêncio estaria mais bem relacionado com o Ser. É um transfundo mais além dos pensamentos ou sensações porém não necessariamente incompatível com eles. Podemos estar em profundo silêncio ainda que pensemos, falemos ou façamos qualquer outra atividade”, explicou antes de conduzir a meditação coletiva.

No final do encontro, Humet me recebeu de forma atenta e carinhosa. Dialogámos rapidamente sobre práticas contemplativas e suas idas à Índia.Em um dado momento confessei que viajar vinha sendo uma espécie de caminho de autoconhecimento para mim. Esteve sorriu e concordou com a possibilidade. Continuámos conversando até a hora que o trem partiu de volta para Barcelona.

“Meditar é aprender a viver em profundidade, não somente durante a meditação, mas durante todo o dia. odemos estar em profundo silêncio ainda que pensemos, falemos ou façamos qualquer outra atividade”

Aquele havia sido um encontro propício. Eu havia, nesta mesma época, me aproximado da meditação Zen Budista. “Quando o mental se aquieta, me refiro a pequena mente discursiva, não há o que defender ou justificar ou pretender, só existe a quietude e a intimidade”, disse a sensei Anik Billard durante um Mondo4. “Quando nos deixamos arrastar de forma automática pelas identificações, podemos tentar voltar a este lugar de quietude. Estar atentos às dramaticidade do eu, deixa-lo descansar … dissolver”, complementou.

“Viajar vem sendo um caminho de autoconhecimento para mim”, confessei num determinado momento. Ele sorriu e concordou com a possibilidade. Seguimos conversando até a hora que o trem partiu de volta para Barcelona.

Foi partir destes encontros – Jorge, Esteve, Anik – que comecei a dedicar uma pequena parte do meu dia ao cultivo do silêncio interior e à meditação; não apenas na rotina cotidiana, mas também durante as minhas viagens. E esta ação vem ajudando a me aproximar de uma forma mais atenta e madura do ato de viajar.

É um engano pensar que podemos achar algo num país estrangeiro que não possamos encontrar na nossa própria casa; tudo o que precisamos esta aqui e agora. Sidarta Gautama, por exemplo, experimentou toda a realidade que necessitava sentado em um único lugar. Ninguém se torna, infelizmente, uma pessoa mais completa e feliz apenas por colocar uma mochila nas costas. Podemos viajar o mundo em busca do que é belo, como bem disse Ralph W. Emerson, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos. A viagem é como a vida; muito mais complexa do que a hipérbole idealizada e comercializável que muitas agências e blogues de viagens tentam nos fazer acreditar e engolir .

Ninguém se torna, infelizmente, uma pessoa mais completa e feliz apenas por colocar uma mochila nas costas. Podemos viajar o mundo em busca do que é belo, como bem disse Ralph W. Emerson, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos.

Viajar para esquecer problemas ou em busca de algo é como aquela parábola sufi na qual um homem santo está buscando, no chão, as chaves que havia perdido:

– Mullá, tem certeza que deixou cair por aqui? – perguntou um jovem.

– Não – respondeu o santo – A perdi perto da minha casa.

– Então, porque o senhor está buscando neste lugar?

– Ora, porque aqui há muito mais luz!

Mas, ainda assim … mesmo com a importância da contemplação, o deslocamento continua sendo uma escola e tanto. É a minha maneira, por exemplo, de sair da zona de conforto e de colocar a minha Salvador natal em perspectiva. É uma das formas de relembrar a mim mesmo a importância de estar sempre alerta; de perceber, na prática, que não há argentinos e brasileiros ou americanos e russos; somos todos humanos, acima de tudo. Viajar me ensina a realidade relativa das coisas.

O movimento físico, em si, não é o fundamental. Porém, ele pode ser um catalisador na medida em que ilumina aspectos antes insuspeitáveis de nós mesmos e, como consequência, do mundo exterior. O ato de viajar não é a fonte desta sabedoria, mas o seu combustível. Aquilo o que busco já está dentro de mim. E as viagens são os instrumentos que ajudam a dar-me conta disto.

O Buda encontrou tudo o que precisava sentando-se, sereno, sob a Árvore Bodhi5. Porém, inclusive ele, precisou viajar durante seis anos para chegar a esse ponto de lucidez e consciência. “Para viajar basta existir”, diria Fernando Pessoa. Mas a grande jornada é reconhecer onde realmente estamos durante todo este tempo. Perceber que, antes mesmo de partir, já haveremos chegado.

Como havia dito Esteve em uma das frases que mais me marcou naquele breve encontro de silêncio e palavras: “O Ego não realizará nunca: já exercemos na plenitude. O coração da prática é ir eliminando as ilusões e enxergar a realidade de uma maneira mais direta e clara. Não é preciso fazer nada para isto, apenas dar-se conta desta dádiva”. Este é, para mim, um belo presente e nossa maior pátria.

 

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1 “A Biblioteca como Espelho” em espanhol. Trata-se de uma oficina de autoconhecimento destinada para os amantes dos livros; a cada sessão liámos um conto – Tchecov, Borges, Mishima, Casares, Lispector e muitos outros – porém, essa era apenas uma boa “desculpa”, por assim dizer, para conversamos sobre nós mesmos.

2 “Caminho até o Silêncio”.

3 El Xiprer é uma entidade solidária em Granollers que ajuda pessoas carentes e em situações desfavorecidas.

4 Sessão de perguntas e respostas entre os alunos e um monge zen.

5 A Árvore Bodhi foi a árvore debaixo da qual Sidarta Gautama, o buda histórico, alcançou a iluminação.

 

 

Todas as fotos que ilustram o texto são do talentoso fotógrafo Alexandre Furcolin Filho.

Vale a pena visitar a página dele e acompanhar o seu belíssimo trabalho. Recomendo!

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A neve em Verona

Era uma noite fria em Verona quando eu dividi um táxi com o Erik e a Alicia, um casal de namorados; ele era norueguês e ela, da Venezuela.

Os dois moravam em São José, na Costa Rica, mas haviam se conhecido em Quito, capital do Equador.Visitavam pela primeira vez a Itália.

Lembro-me que nevava muito naquela noite. Eram os primeiros flocos de inverno e a cidade estava envolvida pela penumbra vespertina. Uma bruma fina pairava no ar e a neve caia lentamente, grossa e corpulenta; girava ao redor dos postes recém-acesos, se estendia numa camada branca sobre os telhados, os carros e os ombros dos transeuntes.

O motorista do táxi era um italiano maduro e de cabelo grisalho, chamado Josep. Ele fazia ponto perto da Casa da Julieta, um dos pontos turísticos mais visitados de Verona. “Há anos que não via tanta neve por aqui”, ele comentou. “Acho que a cidade fica ainda mais bonita e romântica”. Acabei concordando: a experiência de caminhar por suas avenidas, em uma noite de inverno, bem que poderia levar alguém acreditar na veracidade da história de William Shakespeare.

Quando entraram no táxi, o Erik e a Alicia discutiam. Ele havia decidido voltar para o hotel, estava aborrecido por causa do mal tempo. Ela, por outro lado, parecia fascinada; queria ficar pelas ruas, sem rumo, passeando pela Verona noturna.

O táxi seguiu caminho e os dois continuavam se contradizendo. “Este tempo estragou o passeio”, ele dizia. “Não saí da Noruega para sentir frio!” Alicia insistia e argumentava. Somente depois, contou o motivo real da sua empolgação: “Por favor, Erik! É a primeira vez que eu vejo a neve …”

Os dois perguntaram a minha opinião sobre o assunto, se eu preferia estar ali com ou sem o frio, e admito que não soube muito bem o que responder. Havíamos nos conhecido há poucos minutos, debaixo da sacada da Julieta, e não me senti confortável para intervir numa discursão de casal. Acabei murmurando algo sobre “aproveitar o momento, pois ele não ia se repetir novamente” ou alguma outra coisa do gênero.

Baixamos do táxi perto do nosso hotel. Eu tinha alguns assuntos pendentes, dei boa noite e subi para o quarto. Mas, antes disso, lembro-me de ter visto os dois caminhando, rodeados pele neve, em direção à Catedral de Verona.

Alguns anos mais tarde, revirando o meu caderno de viagens, deparei-me com uma frase, já esquecida, que eu havia escrito junto à data daquela viagem: “Uma noite fria de nevasca / Não é feia, nem bonita / Não é boa e nem ruim / A noite é puramente / Como nos propomos a enxergá-la.”

 

 

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A velhinha do avião

A aeronave estava prestes a decolar quando ela me segurou com força pelo braço direito.

Eu – que espiava pela janela, distraído – me assustei com aquele gesto repentino. Virei-me de imediato! Uma surpresa: era uma velhinha na poltrona ao lado. “A infância é a melhor fase da vida, né meu filho? – disse ela, sem afrouxar o agarrão. “Eu daria tudo para ser criança de novo.”

Houve um momento de silêncio; ela imóvel; me olhando, sem largar o braço, como quem espera alguma resposta da minha parte.

Não soube ao certo que tipo de resposta seria esta: estávamos num avião; não nos conhecíamos e, até o momento, não havíamos trocado uma só palavra; e eis que de repente, ela se acomoda na poltrona ao lado, me segura sem aviso e solta uma destas: “A infância é a melhor fase da vida, né meu filho?”

Tentei responder da melhor maneira possível: “Eh … Oi … Me chamo Davi e também adoraria ser criança”. Devo ter acertado, pois ela relaxou um pouco e me soltou, parecendo satisfeita. (Mais pela simpatia da resposta do que pelo fato de também desejar voltar à infância, imagino eu).

“A infância é a melhor fase da vida, né meu filho? – disse ela, sem afrouxar o agarrão. “Eu daria tudo para ser criança de novo.”

Estávamos em um voo Salvador – Rio de Janeiro e chovia muito naquele dia. Lá fora, pela janela, não se via muita coisa; somente a asa esquerda, um pouco levantada, em meio ao aguaceiro. A aeromoça era uma loira alta e oxigenada. Tinha um certo ar decadente e triste ao distribuir amendoins aos passageiros. Ouvíamos os soluços das crianças assustadas que se espalhavam por todo o corredor. Uma sinfonia de gritos, prantos e lamúrias. Levávamos mais de uma hora de atraso e nada da aeronave partir.

“Atenção senhores passageiros, decolagem confirmada”, disse o comandante minutos depois. A aeromoça triste se apressou em direção a cabine e o avião acelerou na pista molhada. O som rouco das turbinas se elevou, incômodo, misturando-se ao berreiro da molecada.

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Erguemo-nos com fluidez pela atmosfera e um horizonte imenso se abriu. Olhando pela janela, em meio a chuva, diviso a paisagem sob nova perspectiva: a pista do aeroporto, cilindros de gasolina, as dunas de areia branca, o verde cada vez mais raro na Av. Paralela, o engarrafamento caótico de Salvador e o azul sempre lindo do mar da Bahia.

A minha vizinha de poltrona estava realmente nervosa. Soltou um longo suspiro de impaciência e depois começou a se abanar com uma revista de bordo, apesar do frio que fazia dentro do avião. Tentei acalmá-la, sem sucesso. Apesar da sua aflição, era uma senhora simpática: tinha cabelo curtinho, todo branco e usava óculos grandes e redondos; tinha a pela morena e vestia-se de forma alegre, levava um crucifixo dourado e lenço azul no pescoço. Lembrou a minha avó, vaidosa e elegante, indo a uma missa de domingo.

Resolvi puxar conversa: ela se chamava Nádia, tinha setenta e cinco anos, viajava ao Rio pra visitar o neto. Perguntei o porquê daquilo sobre voltar a ser criança: É que as crianças, sim, que são felizes. Sabe, meu filho, elas são o que são, sem esconder nada. Quando querem chorar, choram”. Então, quase num sussurro, me revelou o real motivo da sua angustia: “É que esta é a primeira vez que eu ando de avião. Estou morrendo de medo! Se eu pudesse, estaria chorando, do mesmo jeito que estas crianças estão agora”.

Nós dois ficamos em silêncio: eu, surpreso, e ela com uma carinha aflita.

Minha reação foi a de colocar a minha mão direita sobre a sua mão esquerda. “Tudo vai ficar bem. Confie em mim”. E este gesto espontâneo se mostrou um eficiente remédio: a velhinha deu um sorriso de alivio e continuamos a conversar por mais alguns minutos. Depois, ela fechou os olhos, inclinou a cabeça no meu ombro e ficou quietinha, como quem tirava um cochilo.

“É que esta é a primeira vez que eu ando de avião. Estou morrendo de medo! Se eu pudesse, estaria chorando, do mesmo jeito que estas crianças estão agora”.

O avião continuou seu caminho sem turbulências. Junto à janela, lá fora, as nuvens negras abriam espaço aos raios de sol e ao céu azul. O tempo foi mudando e até as crianças aderiram a calmaria.

A vovó continuou quietinha e quando ela parecia se assustar, eu apertava a sua mão e aquilo a tranquilizava. Percebi que, aos poucos, ela foi ganhando confiança, começava curtir a experiência. Perguntei se não queria trocar de lugar, ficar perto da janela.

Sobrevoávamos algum ponto acima do oceano quando o avião atravessou uma grande uma nuvem. A vovó ficou encantada. Disse que parecia uma montanha de algodão-doce e, até mesmo, que seria o assento perfeito para um anjo ou um bonito trono para Deus.

Me peguei, graças a velhinha, apreciando também nossas companheiras, do outro lado da janela, rodando pelo ar no céu de esmalte. Há algo de libertador nas nuvens: sua fluidez e inconstância; elas nunca se parecem consigo mesmas, nem poucos segundos seguidos. Somos nós quem devemos estar atentos para admirá-las, antes que se transformem em ar transparente e se convertam novamente naquilo que nunca deixaram de ser: a totalidade do céu infinito.

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As nuvens passavam tranquilamente e chegou a hora de aterrissar. A vovó sorria, mais tranquila. Abaixo de nós, estavam amigos e familiares mas, também, os motivos de nossos medos e receios; todos eles efêmeros e impermanentes, meros rabiscos na terra quando vistos de uma perspectiva mais ampla.

“Há algo de libertador nas nuvens: sua fluidez e inconstância; elas nunca se parecem consigo mesmas, nem poucos segundos seguidos. Somos nós quem devemos estar atentos para admirá-las, antes que se transformem em ar transparente e se convertam novamente naquilo que nunca deixaram de ser: a totalidade do céu infinito”.

No aeroporto, enquanto esperava a bagagem, vi mais uma vez a minha vizinha de poltrona. Estava com um rapaz alto e moreno, seu neto provavelmente. Se aproximaram com olhar agradecido. Ele ficou bastante tempo esperando devido ao atraso e imaginava quanto incômodo me dera sua avó, sempre nervosa. “Ora, não houve problema nenhum.” Apertámo-nos as mãos. Ela me deu um beijo na bochecha e se despediu com um sorriso cúmplice.

“Um pequeno ato de gentileza pode significar muito”. Somos capazes de entender suficientemente bem o significado desta velha moral. Porém, raras vezes, ela me pareceu tão verdadeira quanto naquele momento em que eu estava distraído, junto à janela fria do avião, e uma velhinha, os seus medos e as nuvens acabaram se convertendo em sábios mestres de uma delicada filosofia.

Crônica de uma renúncia

Era uma pequena vila na beira do deserto. E quando digo pequena, quero dizer realmente pequena: havia algumas dúzias de casas, uma mesquita modesta, um único mercadinho e a rua principal; mais ou menos um quilômetro e meio – ou dez minutos a pé – e chegava-se ao seu fim.

Tudo por ali cheirava à terra porque tudo naquele lugar era feito da terra. Pisava-se em ruas de terra; as paredes das casas eram cobertas com terra; comia-se cuscuz em panelas feitas de terra; sentava-se e dormia-se sobre o solo de terra batida. Era aquela uma pequena vila ou um grande formigueiro humano?

Para chegar até ali, atravessei uma paisagem desértica que era um vale vermelho rodeado de pequenos montes, cactos e pedregulhos. Quilômetros e mais quilômetros de pó, calor, securas e cenários de areia. A única coisa que parecia viva era o motor do nosso ônibus velho que batia alto num tac-tac-tac surdo e insistente.

O motorista era uma árabe gordo queimado do sol. Puxou um lenço do bolso e, sem tirar o cigarro da boca, secou a testa e o nariz. O rádio de pilha chiava algo que lembrava o Reginaldo Rossi, só que em árabe. Éramos poucos passageiros. Todos estavam calmos, em um estranho estado de sonolência. Eu parecia ser o único preocupado com aquela combinação entre lugar-isolado-no-meio-do-deserto mais barulho-estranho-no-motor-de-um-ônibus-velho.

O meu estômago roncava quando entramos naquele vilarejo de terra. Vi, entre suas poucas casas, algo parecido com um restaurante. Fiz sinal de pare. O condutor gordo resmungou alguma coisa parecida ao grunhido do cachorro rabugento do desenho animado. Desci do ônibus ali mesmo. Fiquei parado naquela fronteira entre a estrada e a rua de terra batida, vendo como o motorista conduzia sem a mínima perícia e levava o ônibus de volta ao caminho. Desapareceria minutos depois em meio a uma cortina espessa de poeira.

Tudo por ali cheirava à terra porque tudo naquele lugar era feito da terra. Pisava-se em ruas de terra; as paredes das casas eram cobertas com terra; comia-se cuscuz em panelas feitas de terra; sentava-se e dormia-se sobre o solo de terra batida. Era aquela uma pequena vila ou um grande formigueiro humano?”davi carneiro

O sol do deserto começou a arder em minha cara quando virei em frente à mesquita no caminho até o restaurante. Lembro-me que fazia muito calor, apesar de ser quase às cinco da tarde. O vento levantava o pó da terra e o ar chegava ao rosto numa baforada de forno quente.

O lugar, que acumulava as funções de mercadinho e restaurante, se resumia a um pequeno cômodo retangular com portas estreitas e quatro buracos que serviam de janelas. A luz entrava por uma delas e iluminava a mesa cor ocre e as altas paredes revestidas com barro.

foto: MAMEN MORENO/ lutum.es

foto: MAMEN MORENO/ lutum.es

O dono era um senhor baixinho de pele morena, bigode e expressão simpática. Vestia um djellaba azul; uma espécie de bata comprida com mangas largas e capuz de ponta bicuda. Eu disse Salaam Aleikum arrastando cada letra na tentativa da pronúncia correta. Ele me respondeu com um sorriso afetuoso.

Eu tinha pedido uma salada no momento em que o jeep 4×4 passou pela janela. A porta do restaurante se abriu poucos minutos depois e entrou um casal de ingleses. Olharam desconfiados, cumprimentaram o dono e sentaram na mesa ao lado. Pediram cuscuz com frango. Éramos os únicos no local; eu disse “hi1 e logo começámos um bate-papo.

Ela se chamava Susan, tinha vinte e nove anos e sardas por todo o rosto. Era ruiva e usava óculos aviador com lentes brilhantes. O nome dele era Wilson, trinta e dois, alto e muito magro, com um nariz que parecia uma barbatana de tubarão. Eles me contaram que eram médicos, moravam em Manchester e que se casaram há poucas semanas. Se hospedariam em um spa termal no meio do deserto.
O dono do restaurante se aproximou. Sejam bem-vindos. É um prazer recebê-los, disse comBDR3 435 IMG_2362_1024x682 um sorriso atento enquanto me servia a salada. Ele se chamava Hassan, falava fluentemente francês e inglês, era cordial e fazia o tipo boa praça. Ficámos conversando sobre temas variados; os Jogos Olímpicos que acontecerão no Brasil, os encantos do deserto e sobre alguns escritores britânicos de viagens, que eu admiro, como Patrick Leigh Fermor, Bruce Chatwin e Jan Morris.

Hassan contou que vinha de uma família de advogados e que tinha feito parte dos seus estudos em Paris. Ele tinha uma vida próspera na capital, mas não se sentia feliz. Deixou as comodidades da cidade grande e se mudou para aquela pequena vila. Ele e a sua mulher, Fadilah, começaram a trabalhar com os turistas pelo deserto.

O senhor estendeu um cartão de visita que, junto ao desenho de um camelo, escrevia:

 

Hassan and Fadilah Adventure – Saara Tours

 

Normalmente podemos encontrar os dois no deserto, organizando expedições; porém, quando não aparecem muitos turistas, eles ajudam os pais da Fadilah neste pequeno restaurante.

Um velho árabe com uma barba longa e branca entrou pela porta principal e aconchegou-se ao balcão. Murmurou alguma coisa. Hassan se levantou, caminhou até a cozinha, voltou com um prato de sopa. O velho arrumou a sua magreza na mesa ao lado e foi tomando o caldo em largas colheradas. Hassan recebeu, deu o troco, voltou-se para o balcão que dava para a cozinha.

As ruas de terra continuavam em silêncio. O vento chiou pela janela despenteando o cabelo ruivo de Susan. Não entendo a atitude de pessoas assim, ela disse baixinho. Eu nunca poderia abrir mão da vida na capital para morar em um local tão isolado.

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O rapaz inglês tirou o óculos e esfregou na blusa. Verdade, ele disse, somente por uma proposta muito boa, algumas centenas de libras, talvez. Eu não estive de acordo com a opinião mas, ao mesmo tempo, entendia o seu ponto de vista. Aquela era uma vila perdida do mundo, onde ir ao supermercado significava enfrentar um percurso de mais de uma hora por uma estrada cheia de buracos até alguma cidade maior. Era preciso coragem para fazer uma mudança assim, mesmo com a possibilidade de trabalhar com o turismo. Antes de abrir a boca para dar alguma opinião, dei-me conta de que o sol começava a se por lá fora. Propus aos dois que fôssemos assistir.

Algumas aves voavam ao longe e o céu do deserto foi tomando dezenas de tons – laranja, púrpura, vermelho, dourado – com proporções incríveis pois não havia nenhum obstáculo nos muitos quilômetros de deserto que separavam o horizonte e nós. Foi um dos pores do sol mais intensos que vi na vida.

Então começou a anoitecer. E junto com a escuridão vieram as primeiras estrelas. Ainda não haviam casas com as luzes acessas e, em poucos minutos, a escuridão sobre nós era absoluta. A noite no deserto havia chegado depressa e o céu, imenso, se espalhava sobre a terra apagada. E, de repente, nasceram os pontos luminosos, muitos, cintilantes; um império de astros paralisados no tempo. Em tão pouco tempo haviam tantas estrelas que eu, praticamente, podia sentir a Terra se movendo através delas.

Hassan se aproximou ao nos ver contemplando a noite. Quando vim aqui a primeira vez, disse como se adivinhasse aquele comentário, eu não esperava ficar. Às vezes o dinheiro aperta e eu penso em voltar para o meu antigo emprego. Mas, sinto-me feliz aqui. Além disso, o deserto me cativou. Custaria muito deixar de ver este pôr do sol … ou, renunciar à possibilidade de deitar, todas as noites, sob um céu tão estrelado, concluiu apontando para cima.

Meia hora depois nos despedimos de Hassan e daquela cidadezinha. Combinei de encontrar com ele no dia seguinte no deserto, assim poderíamos conversar mais. Aproveitei a carona e, sob o olhar de mil estrelas, segui com Wilson e Susan pelo caminho de areia que levaria até a próxima cidade.

 

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1 “Oi” em inglês.

Sob o céu enfarinhado de estrelas

A noite no deserto caiu serena e tranquila. Estávamos no Saara a uns vinte quilômetros de M’Hamid, a última cidade antes do deserto, quase na fronteira com a Argélia. Eram aproximadamente às 18:30 e a escuridão tomou conta de tudo, impiedosamente. Lahcen, o nosso guia, armou a tenda perto de uma duna de onde brotavam alguns galhos retorcidos.

Eu sentia frio. A areia gelada e o vento faziam a sensação térmica despencar … mas ninguém parecia muito ligar para isso. Tínhamos acabado de jantar uma super salada marroquina, cheia de cominho e temperos exóticos. Como Mohamed, o cozinheiro da caravana, conseguia preparar uma salada tão fresca e saborosa em pleno deserto era para mim uma coisa tão enigmática como os mistérios das Mil e uma Noite.

Passámos o dia atravessando o Saara, acompanhados de Lahcen e sua comitiva berbere. Aquela experiência foi como comprar uma passagem direta para outra dimensão. Tudo em volta era incrivelmente vermelho e árido. Quilômetros de securas, dunas, poeiras e redemoinhos de resto de mundo. Caminhei a manhã inteira com a sensação de estar em Marte. Só faltava o robozinho da Nasa, o Curiosity, sair vagaroso detrás de um daqueles amontoados de areia.

Anoitecia naquele momento. Me encontrava deitado num grande tapete berbere posicionado estrategicamente à beira da fogueira. Os olhos estavam fixos no céu. O mar de estrelas que se abria era algo difícil de descrever. Surreal como um quadro do Dali e tão real como um sonho bom. Com certeza, o firmamento mais estrelado que já vi na vida.

Dei até uma de astrônomo:

“Olha lá gente, aquela ali é a Ursa Maior, a constelação dos viajantes …”

“Onde?”

“Ali, olha só … A primeira estrela forma o olho, a segunda o ouvido, a terceira a pata …”

“Nossa! É mesmo … e aquela ali, parece um camelo …”

Ficámos ao ar livre, na escuridão total, admirando a infinidade de pontos e luzes. Para completar o clima, os berberes tocavam algumas canções em volta da fogueira com instrumentos improvisados. Apesar da letra incompreensível, a melodia e o ritmo nos envolvia. Perguntei ao Lahcen sobre o que falam as músicas. Ele respondeu: “Muitas coisas… sobre a vida, o deserto, camelos e amores …”

 Passámos o dia atravessando o Saara, acompanhados de Lahcen e sua comitiva berbere. Aquela experiência foi como comprar uma passagem direta para outra dimensão. Tudo em volta era incrivelmente vermelho e árido. Quilômetros de securas, dunas, poeiras e redemoinhos de resto de mundo. Caminhei a manhã inteira com a sensação de estar em Marte.

Dei uma olhada ao redor e não conseguia enxergar nada. A fogueira era a única luz que desafiava aquele oceano de trevas. Tudo em volta era escuridão, silêncio e ausência. Acima de nós, a lua brilhava fina e majestosa, tal qual o símbolo do Islã.

Sob o olhar atento da Ursa Maior, lembrei-me da saída de M’hamid, dos primeiros passos na areia, da “cavalgada” no dromedário, do pôr do sol em meio às dunas e das primeiras palavras de Lahcen:

“Boys, the experience in the desert is simple. Is live the essential things. You have to hear the sound of the wind, put your foot in the sand, fell the desert, fell yourself … So breath and take your time!1

Me lembrei de um poema de Vinicius de Morais, “Olha aqui Mr. Buster”, que é dedicado a um americano rico. Mr. Buster não podia compreender como é que o poeta, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar à “Latin America”. O poema prossegue assim:

“Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo

Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.

Está muito certo que o Sr. tenha no quintal de sua casa em Hollywood

Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia

Está muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu Estado

e sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.

Mas me diga uma coisa, Mr. Buster

Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:

O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?

O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?

O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”

 

Me permiti a ousadia de acrescentar alguns versos aos trechos do poetinha:

Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:

O Sr. sabe lá o que é admirar um céu enfarinhado de estrelas?

O Sr. sabe lá o que é ver um pôr do sol em cima de uma duna de areia?

O Sr. sabe lá o que é caminhar escutando somente sua respiração?

O Sr. sabe lá qual o gosto da salada do Mohamed?

 

Este encontro com o deserto, durante a minha adolescência, foi decisivo na minha escolha pelo Jornalismo de Viagens. Como diria Lahcen, sem dúvidas a pessoa mais interessante que eu conheci naquela viagem:

“Mashi mushkil!”2 Sem pressa. Tome o seu tempo. Respire. Ouça o som do vento e sinta o deserto. Viva o deserto e as coisas simples da vida.”

 

1 Meninos, a experiência no deserto é simples. É viver as coisas essenciais. Você tem que escutar o som do vento, colocar os pés na areia, sentir o deserto, sentir a si mesmo … então respire e tome o seu tempo!
2 Não tem problema em árabe.

 

 

Bisou, mon ami, Bisou

Eu estava esperando para entrar na Sinagoga do bairro judio de Fez quando ela se aproximou cheia de curiosidade. Era uma linda menina marroquina chamada Kenza.

– Você pode tirar uma fotografia minha? – perguntou em francês e, sem perder tempo, já foi fazendo a pose e distribuindo sorrisos.

Kenza tinha aproximadamente sete anos, se comunicava com uma inflexão segura; mexia os lábios finos, abrindo bem a boca ao falar e encarando o rosto do interlocutor. O seu cabelo era castanho e um pouco ondulado; agitava os pequenos olhos negros de maneira atenta, demonstrando o seu entusiasmo; tinha os dois dentinhos da frente separados e isso evidenciava ainda mais o seu sorriso. Sua pele era bem morena, queimada pelo sol, como uma autêntica brasileirinha.

Havia um grupo de meninas com ela, todas maiores, algumas vestidas com roupas típicas; ficaram nos observando a distância, com expressões envergonhadas e tímidas. Porém, Kenza, a mais sabida de todas, ainda tinha um último pedido antes de se despedir:

– Bisou, mon ami. Bisou.1

E me deu dois beijos na bochecha.

Fomos convidados a entrar e visitámos a Sinagoga ao lado do rabino … mas, eu não consegui prestar muita atenção. É que o meu coração tinha ficado do lado de fora, derretido, sob o efeito dos beijos daquela pequena menina marroquina.

 

 

 

1 “Beijo, meu amigo. Beijo”, em francês.

 

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Quando penso em Londres, me lembro desta frase do Heiko

Aconteceu há alguns anos atrás na minha primeira viagem a Londres. Quem viaja sozinha, não fica assim por muito tempo. No albergue conheci o Heiko, da Polônia, e o Klaus, alemão. Ficamos amigos de viagem. No outro dia, bem cedo, fomos juntos explorar a cidade.

Era outono. Londres parecia cinza sob a garoa insistente. Lembro do vento frio que carregava as folhas secas do Hyde Park e da cidade que se abria com suas maravilhas e contradições diante do nosso olhar fascinado …

Lembro que na entrada do metro havia duas pedintes. Uma senhora e uma criança. Mãe e filha, talvez. E uma plaquinha: “ajudem! É para a educação dela.”

Heiko abriu a carteira e deu 5 libras. Todo o dinheiro que ele tinha no momento.

“Você sabe que, muitas vezes, os mendigos inventam estas histórias para comover as pessoas …”, disse Klaus.

“Sim eu sei. Se é verdade ou não, nunca saberemos”, respondeu Heiko. “Entre o não saber se sim ou não …”

Fez uma pausa e depois completou lentamente:

“… entre o sim e o não, eu prefiro acreditar no bem …”

Pegamos o metro e fomos em direção ao The Imperial War Museum (a entrada foi de graça naquele dia, por sinal!).

Passamos um dia incrível, três amigos casuais de viagem.

E, mesmo muitos anos depois, sempre quando penso em Londres, eu me lembro do Heiko e da sua resposta.