Somos todos imigrantes
Tinha vinte e oito anos e vendia girafas de madeira sobre uma manta estendida. Nos encontramos em frente à Piazza della Signoria em Florença. Perguntei de onde ele era.
 
– De lugar nenhum … – respondeu.
– Como é isso?
– Muitas vezes, é preciso nascer em um determinado lugar para ser tratado como ser humano. Prefiro continuar assim, sem país …
 
Ele se chamava Amadou e era um rapaz alto, atlético e de pele muito escura. Trazia um boné em cima dos olhos e fumava um cigarro barato. Vestia uma calça jeans rasgada e um paletó enorme, herdado provavelmente de alguém mais gordo que ele. Tinha olhos grandes e, enquanto contava a sua historia, abria-os ainda mais: “Deixei a minha cidade natal e viajei até a Mauritânia, daí atravessamos o Saara durante semanas até chegar ao Marrocos. Passámos quase um ano em Tanger e cruzámos o Mediterrâneo em uma lancha de borracha.” Amadou relatava os fatos muito devagar e sempre utilizando o plural. Aquela não havia sido uma viagem solitária: mais de vinte pessoas o acompanharam até Itália.
 
Para o escritor italiano Erri de Luca, estes imigrantes são os autênticos heróis épicos do nosso tempo. “Hoje os heróis, os Ulisses, estão em Lampedusa; em Ceuta ou Melila; nos centros de internamento para os imigrantes que arriscaram a vida na busca de melhores condições. Esta é a Odisseia dos nossos dias. Em comparação, as histórias da Europa próspera carecem de sentido e de força”. De Luca versificou este drama no seu livro Solo andata: “Nostra patria è una barca / noi siamo solo andata”[“Nossa pátria é uma barca/ Nós somos só bilhete de ida”, em italiano.].
 
As luzes da Piazza brilhavam num vermelho metálico. Os turistas, apressados, seguiam em direção à Galleria degli Uffizi. Via-se um grupo de adolescentes americanos que tiravam selfies e riam. Ouvia-se, em alguns momentos, as buzinas dos carros se arrastando como as vozes distantes. A noite caia sobre Florença e o rosto de Amadou, envolvido pelo crepúsculo, era um borrão negro sobre o paletó claro.
 
“As pessoas me chamam de ilegal e de clandestino”, ele continuou, “Mas, não tomo como um insulto. Eu não tenho pátria, onde estou, me sinto em casa. É um erro se alguém pensa que um lugar te pertence. Ninguém é dono de nada, tudo é emprestado nesta vida, meu amigo”, Amadou fez uma pausa; olhava imenso Perseu de bronze de Cellini erguendo a cabeça decepada da Medusa. “Não há estrangeiros e não estrangeiros. Ao sair do ventre das nossas mães, somos todos imigrantes …”
 
Não foi possível continuar aquela conversa em meio a Piazza della Signoria. Outro africano, ao longe, fez um sinal; se aproximava a polícia. Amadou deu um pulo, recolheu os seus produtos e saiu dali o mais rápido possível.
 
(Infelizmente não tenho uma foto do Amadou, não deu tempo … na correria da polícia; mas nosso diálogo me marcou pela coerência e clareza)
 

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