Quando uma imagem tem a força de uma Bomba Nuclear

Quando uma imagem tem a força de uma Bomba Nuclear

A SENHORA ESTAVA AGACHADA, completamente nua, à beira do asfalto. Toda sua fortuna jazia espalhada pelo chão: algumas tampas de garrafa, um copo de plástico verde e o minúsculo pedaço de sabão que usava para se banhar. No momento da foto, estava de cócoras. E lavava seus trapos em uma poça de água barrenta, fruto das chuvas na cidade. Tem a pobreza escrita na curva de suas costas, em suas costelas desnutridas, na finura de seus braços. Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. E a pobreza no Brasil tem a face negra, feminina, nordestina. 

Há imagens que nos confrontam com a total ausência de tudo. Que mostram a realidade crua, nua, extremamente próxima, familiar. Assim foi a fotografia publicada hoje, dia 05 de junho, pelo jornal Correio da Bahia. As tocantes palavras do colunista Welter Arduini a acompanham:

“A poça, agora, é sua palaciana banheira imaginária: o asfalto que serve de borda para represar a água barrenta é como reluzente mármore negro; o celestial céu azul que paira sobre sua cabeça é um teto de cristal e a sua frente tem uma imensa janela invadida pelo mar de Patamares (…)”. “(…) O que choca não é sua esquelética e assustadora magreza, mas imaginar o que não foi feito por ela, para deixá-la, assim. Finda a tarefa, se vestiu e juntou suas coisas, mecanicamente”, escreveu o colunista. “Não é Ruanda, Etiópia ou Haiti. Desgraçadamente, é aqui.”

Salvador. A capital baiana. A Roma Negra. A cidade com o maior número de afrodescendentes fora da África. Salvador.

Foi aqui onde há poucas semanas uma repórter humilhou um jovem acusado estupro. O vídeo ganhou repercussão nacional. Ela: loira, bonita e bem vestida. Ele: negro, sujo, e algemado. Tinha a cara de menino. E a pobreza estampada na sequência de dentes quebrados. Uma “entrevista”; um açoite público. Um microfone; um chicote. Uma delegacia; um navio negreiro.

mulher-e1339321418265

O que há de comum entre a idosa da foto do Correio e o menino açoitado de dias atrás? 

São imagens que produzem impactos semelhantes ao de uma bomba nuclear. Te consomem. Te arrastam. Te implodem. E dizem muito sobre nos mesmos. Sobre a sociedade em que vivemos. 

São baianos. Pobres. Negros. Fruto da violência e das consequências dramáticas de mais de 300 anos de escravidão.  São filhos  dos chicotes da discriminação; da ineficiência do poder público; de infâncias roubadas; do comodismo civil.  Confrontados com a falta de tudo, os homens abstêm-se dos sonhos, desprendendo-se da esperança e do desejo de se tornarem outros.

Volto as palavras de Arduini. O colunista parou a lado da senhora faminta e lhe fez três perguntas. As respostas vieram quase monossilábicas.

Quem é a senhora, quantos anos tem e de onde veio: ‘Maria…mas me conheço ‘de Nêga’. Acha que tem (quase ou pouco mais de) 60 anos. Não lava sua roupa ou se banha no mar ‘por que lá, nunca vou’. Veio do interior. Deixou filhos e família pelo mundo‘Por desgosto’. Quando perguntei ‘onde estão?’. Respondeu com um olhar carregado de tristeza e distante. Sua fragilidade é de doer. Me disse algo que não entendi, virou de costas e se pôs a andar”.

Quantos mais açoites públicos ou imagens com a força de um Hiroshima serão necessários  para combater a nossa pouca caridade e amor pelo próximo?

Serão necessários mais 300 anos de escravidão para acabar com a nossa falta de atitude política e civil, que na maioria das vezes se resumem a compartilhamentos e comentários chorosos?

Perguntas que ficam no ar … assim como o cheiro da hipocrisia que acostumamos a tragar todas as manhãs.

Vale a pena ler o texto do Correio:

Welter Arduini: Quem é a senhora? De onde vem?

 

Leave A Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *