Por que viajamos – Pico Iyer

Traduzido por Paulo Césare do excelente e extremanente recomendado Blog Odepórica

 

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Por que viajamos – Pico Iyer

Nós viajamos, em primeiro lugar, para nos perdermos; e em seguida, viajamos para nos encontrarmos. Nós viajamos para abrirmos nossos corações e olhos e para aprendermos mais sobre o mundo do que aquilo que nos é noticiado pelos nossos jornais. Nós viajamos para trazermos um pouco do que pudermos, em nossa ignorância e conhecimento, daquelas partes do globo nas quais os ricos estão diversamente dispersos. E nós viajamos, em essência, para nos tornarmos jovens tolos novamente – para diminuir a velocidade do tempo e absorvê-lo, e nos apaixonarmos mais uma vez.

A beleza de todo esse processo foi melhor descrita, talvez, antes mesmo das pessoas viajarem com freqüência de avião, por George Santayana no seu ensaio lapidário, “The Philosophy os Travel” (A Filosofia da Viagem). “Às vezes” – escreveu o filósofo da Harvard – “nós precisamos escapar em direção a lugares ermos, sem um propósito definido, em férias onde haja espaço para algo arriscado, aventureiro, de modo a estimular os limites da vida, a testar o sofrimento e a privação, e para ser impelido a trabalhar desesperadamente por um momento, não importa qual.”

Eu gosto daquele stress no trabalho, desde que nunca mais do que na estrada na qual nos é mostrado como nossas bênçãos são proporcionais às dificuldades que as precedem; e eu gosto do stress nas férias que seja edificante, desde que isso esteja de acordo com nossos costumes morais tão facilmente quanto cair na cama à noite. Alguns de nós sempre esquecemos a conexão que existe entre “travel” (viajar) e “travail” (labutar), e eu sei que viajo em grande parte em busca da privação – tanto a minha, a que desejo sentir – quanto a de outros, as quais eu preciso ver. Viajar nesse sentido nos guia em direção a um equilíbrio melhor em sabedoria e compaixão – em ver o mundo mais claramente, de senti-lo de maneira legítima. Pois ver o mundo sem sentimento é sinal de indolência, ao passo que senti-lo sem vê-lo pode ser sinal de cegueira.

Para mim, a primeira grande alegria de viajar é simplesmente o luxo de deixar em casa todas as minhas crenças e certezas, e enxergar tudo aquilo que eu pensei que eu soubesse sob uma luz diferente, e de um ângulo tortuoso. Nesse aspecto, até mesmo uma lanchonete da Kentucky Fried Chicken (em Beijing) ou uma apresentação tosca de “Orquídea Selvagem” (na Champs-Elysees) podem ser experiências inovadoras e reveladoras: na China, acima de tudo, as pessoas pagarão o salário de uma semana para comer com o Coronel Sanders (o autor se refere ao ícone americano que representa a cadeia KFC), e em Paris, Mickey Rourke (protagonista do mal falado filme “Orquídea Selvagem”) é saudado como o melhor ator desde Jerry Lewis.

Se um restaurante mongol nos parece exótico em Evanston, Ilinóis, o mesmo acontece com o McDonald’s em Ulan Bator – ou, pelo menos, igualmente além de qualquer coisa que se pudesse esperar. Considerando que ultimamente está na moda fazer distinção entre “turista” e “viajante”, talvez a verdadeira distinção se dê entre aqueles que deixam suas conjecturas em casa, e aqueles que não. Entre os que não deixam, um turista é apenas alguém que se lamenta, “Aqui nada é igual ao jeito que é em casa”, enquanto um viajante é alguém que murmura, “Tudo aqui é igual ao Cairo – ou Cuzco ou Kathmandu”. É tudo a mesma coisa.

Mas para o resto de nós, a soberana liberdade de viajar provém do fato de que isso mexe com você, te põe de cabeça para baixo, e coloca tudo o que você julgava garantido em seu lugar. Se um diploma pode ser um excelente passaporte (para uma jornada através de um realismo rígido), um passaporte pode ser um diploma (para um curso de impacto em relativismo cultural). E a primeira lição que nós aprendemos na estrada, quer gostemos ou não, é como as coisas que nós imaginamos ser universais são provisórias e provincianas.

Quando você vai para a Coréia do Norte, por exemplo, você realmente sente estar aterrisando em um planeta diferente – e os norte-coreanos sem dúvida sentem que estão sendo visitados por um extraterrestre também (ou senão, eles simplesmente assumem que você, assim como eles, recebe ordens cada manhã do Comitê Central sobre que roupa vestir e qual rota usar quando for caminhar para o trabalho, e você, tal como eles, possui alto-falantes no seu quarto apresentando propaganda política a cada amanhecer, e você, como eles, tem os seus rádios programados para receber notícias de um único canal fixo).

Nós viajamos, então, em parte para chacoalhar nossas complacências ao ver todas as necessidades políticas e morais, os dilemas de vida e morte, que nós sempre temos que encarar em casa. E viajamos para preencher as lacunas deixadas pelas manchetes do dia seguinte: Quando você dirige pelas ruas de Porto Príncipe, por exemplo, quando quase não há pavimento e as mulheres se aliviam próximo a montanhas de lixo, suas noções de Internet e de uma “ordem mundial” começam convenientemente a ser revisadas. Viajar é a melhor maneira que nós temos de resgatar a humanidade dos lugares, salvando-os da abstração e da ideologia.

E nesse processo, nós também nos salvamos da abstração, e vemos o tanto que podemos levar aos lugares que visitamos, e como nós podemos nos tornar um tipo de pombo correio – um anti-Federal Express, se você gostar – ao transportar para frente e para trás aquilo que cada cultura necessita. Percebo que eu sempre levo um pôster do Michael Jordan para Kyoto, e trago cestas trançadas de ikebana de volta à Califórnia; eu invariavelmente viajo à Cuba com uma mala cheia de frascos de Tylenol e de sabonetes em barra, e volto com outra lotada com gravações de salsa, e esperança, e cartas a irmãos há muito desaparecidos.

Porém, mais significantemente, nós levamos valores, crenças e notícias aos lugares que vamos, e em muitas partes do mundo, nós nos tornamos telas de vídeo ambulantes e jornais vivos, os únicos canais que conseguem tirar as pessoas dos limites da censura de sua terra natal. Em lugares fechados ou empobrecidos, como Pagan, Lhasa ou Havana, nós somos os olhos e os ouvidos das pessoas que conhecemos, seu único contato com o mundo externo e, muitas vezes, o mais próximo, quase literalmente, que eles chegarão de Michael Jordan ou Bill Clinton. O desafio mínimo de uma viagem, pelo menos, é o de aprender como importar – e exportar – sonhos com ternura.

É provável que muitos de nós já tenhamos ouvido (com bastante freqüência) a velha fala de Proust sobre como a verdadeira viagem de descoberta não consiste em ver novos lugares, mas em enxergar com novos olhos. No entanto, uma das belezas mais sutis de uma viagem é que ela lhe permite levar novos olhos às pessoas que você encontra. Deste modo até mesmo as férias contribuem para que você aprecie mais o seu próprio lar – nem tanto por enxergá-lo através dos olhos de um admirador distante – elas ajudam a trazer novamente olhos que sabem apreciar os lugares que você visita. Você pode ensiná-los o que eles devem celebrar tanto quanto você pode celebrar o que eles têm para ensinar.

É deste modo, penso, como o turismo, que tão obviamente destrói culturas, pode também ajudar a ressuscitá-las ou reavivá-las, como tem acontecido com as novas danças “tradicionais” em Bali, e com os artesãos na Índia, que passaram a prestar mais atenção aos seus trabalhos. Se a primeira coisa que nós pudermos levar aos cubanos for um sentido real e equilibrado de como é a América contemporânea, a segunda – e talvez a mais importante – coisa que nós podemos mostrar-lhes é um sentido fresco e renovado de quão caloroso e belo é o seu país, para aqueles que puderem compará-lo com outros lugares ao redor do globo.

Assim, viajar nos faz girar em dois sentidos de uma vez: mostra-nos os aspectos, os valores e as questões que normalmente poderíamos ignorar; mas também, e mais profundamente, mostra-nos todas as partes de nós mesmos que de outra maneira poderiam enferrujar. Pois ao viajar para um local verdadeiramente estrangeiro, nós inevitavelmente viajamos por humores e estados de espírito e passagens escondidas que de outras maneiras dificilmente teríamos motivos para visitar.

 

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De um modo geral, quando estou na Tailândia, embora seja um abstêmio que geralmente vai para a cama às nove horas da noite, eu fico pelos bares locais até o amanhecer; e no Tibet, embora não seja de fato um budista, passo dias inteiros nos templos, ouvindo o canto dos sutras. Vou para a Islândia visitar os espaços lunares dentro de mim, e, na misteriosa quietude e vazio daquele vasto mundo desarborizado, remendo as partes de mim que se encontram obscurecidas pelas conversas fiadas e pela rotina.

Nós viajamos, via de regra, em busca de nós mesmos e de anonimato – e, é claro, quando encontramos um, capturamos o outro. Num país estrangeiro nos encontramos maravilhosamente livres de posição social, trabalho e reputação; somos, como Hazlitt (famoso economista e escritor norte-americano) coloca, apenas os “cavalheiros de gabinete”, e as pessoas não podem colocar um nome ou uma etiqueta em nós. E por estarmos esclarecidos a esse respeito, e libertos de rótulos secundários, temos a oportunidade de entrar em contato com as partes mais essenciais de nós mesmos (o que pode explicar por que nos sentimos mais vivos quando estamos distantes do lar).

Longe de casa ficamos acordados até tarde, seguimos impulsos e nos encontramos tão abertos como quando estamos amando. Vivemos sem um passado ou um futuro, pelo menos por um momento, o que nos deixa abertos a novas interpretações. Até podemos nos tornar misteriosos – aos outros, num primeiro momento, e às vezes até a nós mesmos – e, como nada menos do que um dignitário como Oliver Cromwell (estadista inglês, 1599-1658) observou certa vez, “nunca se vai tão longe como quando não se sabe para onde se vai”.

Há, naturalmente, grandes riscos nisso, como em qualquer tipo de liberdade, mas a grande dádiva é que, ao viajar, nós nascemos novamente e podemos voltar a ter, em alguns momentos, uma natureza mais jovem e aberta. Viajar é um modo de reverter o tempo a uma pequena escala, e fazer um dia durar um ano – ou pelo menos 45 horas – e de nos envolvermos, como na infância, com o que não conseguimos compreender. A língua facilita essa fissura aberta, de modo que quando vamos à França nós sempre migramos para o francês, e esse contato com a língua estrangeira revela um lado nosso que é inocente, simples e educado. Mesmo quando eu não estou falando inglês pidgin em Hanói, eu estou simplificado de uma maneira positiva, consciente de que não estou me expressando, mas simplesmente tentando fazer sentido.

Pois viajar, para muitos de nós, é uma busca não só do desconhecido, mas do desconhecimento; eu, pelo menos, viajo em busca de um olhar inocente que possa levar-me de volta a uma natureza mais inocente. Eu tendo a acreditar mais quando estou no estrangeiro do que quando me encontro em casa (e embora isso possa ser traiçoeiro, ao menos ajuda a expandir a minha visão), e tenho tendência a ficar mais facilmente animado no exterior, e até mais gentil. E desde que ninguém que eu conheça pode “tomar” o meu lugar – ninguém pode me prender no meu currículo – eu posso me refazer de uma maneira melhor, ou mesmo pior, naturalmente (se a viagem é notoriamente um berço de falsas identidades, ela também pode ser, no seu melhor, uma prova severa para alguns). Nesse sentido, uma viagem pode ser um tipo de monaquismo em movimento: na estrada, nós frequentemente vivemos de maneira mais simples (mesmo quando hospedados em um hotel luxuoso), apenas com as posses que podemos carregar e nos rendendo ao acaso.

Isso é o que Camus quis dizer quando afirmou que “o que dá valor à viagem é o medo” – a ruptura, em outras palavras, (ou emancipação) de circunstância, e todos os hábitos por trás dos quais nos escondemos. É por isso que muitos de nós não viajamos em busca de respostas, e sim de melhores perguntas. Eu, como muitas pessoas, tenho tendência a fazer perguntas sobre os lugares que visito e aprecio e que tenham relação com algo que me dê suporte: no Paraguai, por exemplo, onde um em cada dois carros é roubado, e dois terços dos produtos à venda são contrabandeados, me vejo obrigado a repensar toda a minha presunção californiana. E na Tailândia, onde muitas mulheres jovens abdicam do seu corpo para poder dar amparo às suas famílias – e se transformar em budistas melhores – eu tenho que questionar meus próprios pré-julgamentos. “O livro de viagem ideal”, disse certa vez Christopher Isherwood, “deve ser um pouco talvez como um romance policial no qual você está em busca de algo”. E isso ainda seria melhor, eu completaria, se você nunca chegasse a encontrar aquilo que busca.

Lembro-me, de fato, após minhas primeiras viagens ao sudeste asiático, há algumas décadas, como eu retornava ao meu apartamento em Nova Iorque e ficava largado na cama, sem conseguir dormir por causa de algo mais do que um jet lag, revirando na memória tudo aquilo que eu havia experienciado, e vendo saudosamente minhas fotografias e relendo meus diários, como se pudesse extrair algum mistério a partir disso. Qualquer um que testemunhasse essa estranha cena teria tomado a conclusão correta: eu estava apaixonado.

Pois se cada relação amorosa pode soar como uma jornada a um país estrangeiro, onde você mal consegue falar o idioma, e não sabe onde está indo, e é atraído cada vez mais profundamente para uma escuridão sedutora, cada visita a um país estrangeiro pode ser um caso de amor, como um enigma onde você tenta descobrir quem você é e por quem está apaixonado. Todos os grandes livros de viagem são histórias de amor – da Odisséia à Eneida, da Divina Comédia ao Novo Testamento – e todas as boas viagens são, assim como o amor, sobre como ser levado a dar cabo de si mesmo e ser atirado em direção ao terror e à surpresa.

E o que essa metáfora também nos ensina quando voltamos para casa é que a viagem é uma transação bilateral, como nós tão facilmente esquecemos, e se uma guerra não deixa de ser um tipo de encontro entre nações, o romance é outro. O que nós muitas vezes ignoramos quando vamos ao exterior é que somos objetos de escrutínio tanto quanto as pessoas que nós próprios examinamos, e somos consumidos pelas culturas que consumimos, tanto na estrada como quando estamos em casa. No mínimo, somos objetos de especulação (e mesmo de desejo) que podem parecer exóticos às pessoas ao nosso redor, assim como elas a nós.

 

Somos os acessórios cômicos nos filmes caseiros japoneses, os esquisitos das anedotas contadas na Malásia e os caras decadentes nas piadas dos chineses; somos os cartões postais ambulantes ou os objetos bizarros sobre os quais os habitantes dos vilarejos peruanos falarão mais tarde aos seus amigos. Se o ato de viajar trata do encontro de realidades, não deixa de tratar menos do confronto de ilusões: você me dá a minha tão sonhada visão do Tibet, e eu lhe darei sua tão desejada Califórnia. E na verdade, muitos de nós, até (ou especialmente) aqueles que estão fugindo da América rumo ao exterior, serão tomados, quer queira quer não, como símbolos do sonho americano.

Talvez essa seja de fato a questão mais central e deturpada das questões que a viagem nos propõe: como responder aos sonhos que as pessoas lhe oferecem? Você encoraja as suas idéias de uma Terra de Leite e Mel por todo o horizonte, mesmo que essa seja a terra que você mesmo abandonou? Ou você tenta diminuir o entusiasmo delas dizendo que esse lugar só existe em suas mentes? Estimular os seus sonhos pode, afinal, fazer com que elas vivam com uma ilusão, mas tirar os seus sonhos pode por outro lado tirar-lhes a única coisa que as sustenta em suas adversidades.

Toda essa complexa interação – semelhante aos dilemas que nós encaramos com aqueles a quem amamos (como equilibrar a veracidade e o discernimento?) – é parte da razão pela qual muitos travel writers são, por natureza, entusiastas: não só Pierre Loti (romancista francês, 1850-1923), que tinha a fama e a infâmia de se apaixonar em qualquer lugar que chegasse (um marinheiro arquetípico deixando descendência na forma mítica de Madame Bovary), mas também Henry Miller, D.H. Lawrence ou Graham Greene, todos os quais confirmaram a verdade oculta de que somos otimistas quando estamos fora e rapidamente pessimistas quando ao lar voltamos. Nenhum deles de modo algum foram cegos em relação às deficiências dos lugares ao seu redor, mas todos, tendo escolhido ir até lá, trataram de encontrar algo para admirar.

Todos, nesse sentido, acreditaram no “estar em mudança” como um dos pontos de decisão de partir em viagens, e “ser transportado” no sentido público tanto quanto no privado; todos os que experimentaram aquele “ecstasy” (“ex-estase”) nos falam que nossas sensações mais intensas vêm de quando não estamos parados, e a epifania pode seguir-se ao movimento bem como precipitá-lo. Lembro-me de uma vez haver perguntado ao renomado travel writer Norman Lewis se alguma vez ele se interessou em escrever sobre o apartheid na África do Sul. Ele me olhou espantado. “Para escrever bem sobre algo”, ele disse, “Eu tenho que gostar”.

Ao mesmo tempo, como tudo isso é intrínseco ao ato de viajar, de Ovídio a O’Rourke, a viagem em si cambia conforme as mudanças do mundo, e com ela, o mandato dos que escrevem sobre viagem. Não basta ir até os confins do mundo nos dias de hoje (mesmo porque os confins do mundo estão frequentemente vindo até você); e os locais onde um escritor como Jan Morris poderia, há poucos anos, obter algo surpreendente apenas viajando para todas as grandes cidades do globo, agora qualquer um com um cartão Visa pode fazer igual. Quando Morris, por sua vez, escrevia suas crônicas sobre os últimos dias do Império (britânico), um travel writer mais jovem se encontra numa posição melhor para mapear os primeiros dias de um novo Império, pós-nacional, global e tão diligente como um Rajá ao transportar seus objetos e valores ao redor do mundo.

Em meados do século 19, os britânicos notavelmente levaram a Bíblia, Shakespeare e o críquete para todo o mundo; agora um tipo de Império muito mais internacional está enviando a Madonna, os Simpsons e Brad Pitt. E a maneira como cada cultura faz uso desse reservatório comum de referências diz muito mais a respeito delas do que seus produtos nativos poderiam revelar. Madonna num país islâmico, afinal, soa radicalmente diferente da Madonna num país confucionista, e o que dizer de uma Madonna pelas ruas de Manhattan. Quando você for a um MacDonald´s em Kyoto, você irá encontrar Mcburgers Teriyaki e tortas de batata com bacon. As toalhinhas de bandeja apresentam mapas dos grandes templos da cidade, e os pôsteres pendurados por todo o ambiente mostram as maravilhas de São Francisco. E – o mais crucial de tudo – os jovens comendo seus Big Macs, com bonés de baseball usados ao contrário, com suas calças Levi’s 501, ainda são completamente e inalienavelmente japoneses na maneira como se movem, como acenam com a cabeça, como bebericam seus chás Oolong – e os proprietários de um McDonald’s do Rio, Marrocos ou de Manágua jamais se equivocarão quanto a isso. Estes são os dias em que um domínio totalmente novo e exótico surge a partir da maneira como uma cultura se apropria e afeta os produtos da outra.

 

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O outro fator complicador e emocionante de tudo isso são as pessoas, cada vez mais habituadas a conviver com diferentes idiomas e mestiçagens, fato comum em cidades como Toronto, Sydney ou Hong Kong. Eu mesmo sou, em muitos sentidos, uma espécie típica e crescente disso, pois nasci na Inglaterra, sou filho de pais indianos, me mudei para os Estados Unidos aos sete anos e não posso dizer que seja um americano, um indiano ou um inglês. Fui, desde pequeno, um viajante de nascimento, para quem até mesmo uma visita à loja de doces era uma viagem a um mundo estrangeiro, onde ninguém que eu visse combinava com a herança cultural de meus pais – ou com a minha mesma. E embora parte disso seja involuntário e trágico – o número de refugiados no mundo, que chegou a 2,5 milhões em 1970, hoje já atinge pelo menos 27,4 milhões – também envolve, para alguns de nós, a chance de sermos transnacionais em um sentido mais alegre, aptos a nos adaptar em qualquer lugar, a nos acostumar a sermos estrangeiros em qualquer local e forçados a modelar rigorosamente nossos próprios conceitos de lar. (E se nenhum lugar é como o nosso lar, podemos ser otimistas em qualquer lugar).

Além disso, mesmo aqueles que não se movem ao redor do mundo, vão encontrar cada vez mais o mundo se movendo ao redor deles. Caminhe apenas seis quarteirões no Queens ou Berkeley, e você estará viajando por diversas culturas em poucos minutos; desça de um táxi em frente à Casa Branca e você muitas vezes se sentirá em Addis Abeba. A tecnologia, também, aumenta esse sentido de disponibilidade (às vezes de maneira ilusória), de modo que muitas pessoas sentem que podem viajar pelo mundo sem sair do quarto – através do cyberspace ou de CD-ROMs, vídeos e viagens virtuais. Há muitos desafios nisso, naturalmente, no que diz respeito sobre as noções de família, comunidade e lealdade e a preocupação de que as versões puramente sintéticas dos lugares possam substituir a coisa real – para não mencionar o fato de que o mundo parece aumentar como uma torrente, um alvo que se movimenta tão rápido que não se consegue percebe-lo. Mas existe, pelo menos para o viajante, a noção de que aprender sobre a sua origem ou sobre um mundo exterior pode ser uma única e mesma coisa.

Todos nós sentimos isso desde o berço, e sabemos, de algum modo, que todo o movimento significante que alguma vez fizemos se deu no âmbito interno. Nós viajamos quando vemos um filme ou travamos uma nova amizade. Romances (literários) muitas vezes são viagens tanto quanto livros de viagem são ficção; e ainda que isso seja um fato desde que Sir John Mandeville narrou seus pitorescos contos do século 14 sobre o Oriente – que ele nunca visitou – há uma distinção ainda mais obscura agora, quando gêneros distintos se juntam a outras fronteiras em colapso.

Em sua obra “House Arrest”, um disfarce sutil sobre a Cuba de Fidel Castro, Mary Morris reitera, na página dos direitos autorais, “Todos os diálogos são inventados. Isabella, sua família, os habitantes e até mesmo a ilha foram criações da imaginação da autora.” Entretanto, na página 172, pode-se ler: “A ilha, é claro, existe. Não deixe ninguém lhe enganar sobre isso. Pode parecer que não existe. Mas ela existe.” Não é de admirar que a narradora do relato de viagem – uma construção ficcional (ou não?) – confesse que dedica sua coluna na revista de viagem a lugares que nunca existiram. “Erewhon”, afinal de contas, a terra desconhecida do romance de Samuel Butler, é apenas a palavra “nowhere” (“lugar nenhum”) reajustada.

Viajar, então, é uma aventura rumo a uma zona reconhecidamente subjetiva, a imaginação, e o que o viajante traz na volta é – e tem que ser – um componente inefável dele mesmo e do lugar, o que de fato se encontra lá e aquilo que somente existe nele. Embora os livros de Bruce Chatwin pareçam oscilar entre fato e fantasia, V.S. Naipaul teve sua obra “A Way in the World” (1994) publicada como não-ficção na Inglaterra e como “romance” nos estados Unidos. E quando alguns dos contos de Paul Theroux, da obra “My Other Life” (“Minha Outra Vida”, 1996, um livro de memórias meio-inventado) foram publicados no The New Yorker, eles foram categorizados dissimuladamente como “Fato e Ficção”.

E sendo a viagem, de certo modo, uma trama entre percepção e imaginação, os dois maiores travel writers, para mim, aos quais eu constantemente volto são Emerson e Thoreau. Ambos insistem no fato de que a realidade é uma criação nossa, e que nós inventamos os lugares que vemos da mesma forma que fazemos com os livros que lemos. Aquilo que encontramos fora de nós tem que estar dentro de nós para que possa ser encontrado. Ou, como sabiamente colocou Sir Thomas Browne (1605-1682), “Nós carregamos em nosso interior as maravilhas que buscamos em nosso exterior. Existe uma África e seus prodígios dentro de nós.”

Portanto, se cada vez mais temos que levar nossa percepção de lar dentro de nós, também temos – como nos recordam Emerson e Thoreau – que levar conosco nosso sentido de direção. Os mais valiosos oceanos que iremos explorar serão sempre as vastas expansões dentro de nós, e as travessias mais importantes serão aquelas que cruzaremos no limiar do coração. A virtude de encontrar um pavilhão dourado em Kyoto é que ele lhe permite levar de volta um Templo Dourado particular e mais duradouro ao seu escritório no Rockefeller Center.

Embora o mundo pareça estar cada vez mais esgotado, o mesmo não se pode dizer de nossas viagens, e os melhores relatos de viagem nos últimos anos têm sido aqueles que empreendem uma jornada paralela, combinando os passos físicos de uma peregrinação com os passos metafísicos de um questionamento interior, ou os que falam de viagens aos mais distantes patamares da esquisitice humana (como na obra de Oliver Sack, “A Ilha dos Daltônicos”, que mostra uma jornada não apenas a uma remota ilha do Pacífico, mas a uma região onde as pessoas realmente vêem a luz de maneira diferente). As praias mais distantes, somos constantemente lembrados, situam-se dentro da pessoa que se encontra adormecida ao nosso lado.

De modo que, a viagem, de coração, é apenas uma maneira rápida de manter nossas mentes despertas e em movimento. Como escreveu Santayana, herdeiro de Emerson e Thoreau, autor citado no começo deste texto, “Existe sabedoria em mudar, sempre que possível, de um patamar familiar para um desconhecido; isso mantém a mente ágil, liquida com o preconceito e nutre o humor”. Os poetas românticos inauguraram a era das viagens porque eles foram os grandes apóstolos dos olhos abertos. Monges budistas são frequentemente vagabundos, em parte porque eles acreditam na vigília. E se a viagem é como o amor, é porque ela também é um estado de consciência dos mais elevados, no qual estamos atentos, receptivos, não ofuscados pelo que nos é familiar e prontos para sermos transformados. É por isso que as melhores viagens, tal como os melhores casos de amores, nunca terminam de fato.

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Traduzido por Paulo Césare do excelente e extremanente recomendado Blog Odepórica

O texto original em inglês pode ser acessado através do site Worldhum.

 

Pico Iyer nasceu em Oxford, Inglaterra, em 1957. Filho de pais indianos, é um dos mais reverenciados travel writers da atualidade. Escreveu seis livros de ensaios e dois romances. No Brasil, foram publicadas duas obras suas: Cuba e a Noite (1997) e O Caminho Aberto: um Dalai-Lama na Era Global (2009). O texto que escolhemos para introduzir esse autor tão respeitado no exterior e ainda pouco conhecido por aqui, Why we travel, é um verdadeiro tratado sobre a arte de viajar. É vibrante, inteligente, introspectivo. Por ser um pouco extenso para os padrões de um blog – ainda que o Odepórica não siga essa tendência de postagens mais curtas, características dos blogs de um modo geral, irei publicar o texto na íntegra dividido em três partes. O lado bom é que você, leitor, poderá assimilar a riqueza das palavras de Pico Iyer aos poucos, fazendo dessa leitura uma experiência quase contemplativa. Afinal, um bom viajante nunca tem pressa de chegar ao seu destino, não é mesmo? Boa leitura.

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