O sorriso de Kamal
– Hello! Where you from? – me perguntou o vendedor ambulante perto da Torre Eiffel.
 
Era um jovem alto e muito negro, devia ter a minha idade.
 
– Eu sou do Brasil, respondi em inglês. – Ahhh, do Brasil!, replicou, sem deixar eu continuar a frase, numa risada clara e solta: – Salaam aleikum, my friend![Que a paz esteja convosco, meu amigo!]
 
O homem ficou calado por alguns segundos, me olhando, sempre a rir. A luz do céu de Paris era intensa e a contraluz, o azul se misturava com o negro da pele e o cinza metálico da torre.
 
Ofereci a mão num aperto:
– Eu me chamo Davi. E você?
– Sou Kamal, do Senegal.
 
Conversamos mais um pouco. Kamal do Senegal era um dos milhares de africanos que arriscam suas vidas para chegar à Europa.
Chegou na Itália numa balsa improvisada, morou alguns meses na Alemanha, antes de chegar a Paris. Um dos seus irmãos não teve a mesma sorte. Quase cinco mil imigrantes morreram no ano de 2014 nesta mesma travessia, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM); número recorde num único ano. A OIM admitiu que o número não é preciso já que muitas das mortes nem sequer chegam a ser contabilizadas.
 
– Brasil e Senegal. Como irmãos. Somos parecidos! – disse Kamal, já no final do nosso encontro, sem parar de rir, pousando a mão direita sobre o coração.
– Quais as coisas que temos em comum? – perguntei, curioso.
– Não sei muito bem como dizer em inglês.
– Apenas tente.
– Senegal e Brasil. Parecidos. Até nos piores momentos. Nunca deixamos de sorrir.

Top Manta (J. París)

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