O ato de viajar em um sentido mais profundo

Eu conheci Esteve Humet, psicólogo especialista em meditação, na cidade de Granollers, ao nordeste da Catalunha. Naquela época, eu fazia parte do curso La Biblioteca como Espejo1 ministrado pelo escritor argentino Jorge Zentner, um autêntico amigo e mestre. “Neste final de semana haverá uma palestra sobre Camino hacia el Silencio2, o novo livro do Humet”, disse Jorge com o seu sotaque portenho que me soa tão bem. “Será em um lugar especial chamado El Xiprer3. Vamos?”

Chegamos ao local após uma rápida viagem de trem. Humet era um senhor de uns sessenta anos, magrinho, barba branca e sorriso fácil. Teve o privilégio de conviver com importantes mestres espirituais: o monge beneditino Estanislau Llopard, que viveu como eremita em Montserrat; e o padre jesuíta Tony de Mello, com quem conviveu na Índia.

“Meditar é aprender a viver em profundidade, não somente durante o ato em si, mas durante todo o dia”, disse ele em um momento dado. “Este silêncio estaria mais bem relacionado com o Ser. É um transfundo mais além dos pensamentos ou sensações porém não necessariamente incompatível com eles. Podemos estar em profundo silêncio ainda que pensemos, falemos ou façamos qualquer outra atividade”, explicou antes de conduzir a meditação coletiva.

No final do encontro, Humet me recebeu de forma atenta e carinhosa. Dialogámos rapidamente sobre práticas contemplativas e suas idas à Índia.Em um dado momento confessei que viajar vinha sendo uma espécie de caminho de autoconhecimento para mim. Esteve sorriu e concordou com a possibilidade. Continuámos conversando até a hora que o trem partiu de volta para Barcelona.

“Meditar é aprender a viver em profundidade, não somente durante a meditação, mas durante todo o dia. odemos estar em profundo silêncio ainda que pensemos, falemos ou façamos qualquer outra atividade”

Aquele havia sido um encontro propício. Eu havia, nesta mesma época, me aproximado da meditação Zen Budista. “Quando o mental se aquieta, me refiro a pequena mente discursiva, não há o que defender ou justificar ou pretender, só existe a quietude e a intimidade”, disse a sensei Anik Billard durante um Mondo4. “Quando nos deixamos arrastar de forma automática pelas identificações, podemos tentar voltar a este lugar de quietude. Estar atentos às dramaticidade do eu, deixa-lo descansar … dissolver”, complementou.

“Viajar vem sendo um caminho de autoconhecimento para mim”, confessei num determinado momento. Ele sorriu e concordou com a possibilidade. Seguimos conversando até a hora que o trem partiu de volta para Barcelona.

Foi partir destes encontros – Jorge, Esteve, Anik – que comecei a dedicar uma pequena parte do meu dia ao cultivo do silêncio interior e à meditação; não apenas na rotina cotidiana, mas também durante as minhas viagens. E esta ação vem ajudando a me aproximar de uma forma mais atenta e madura do ato de viajar.

É um engano pensar que podemos achar algo num país estrangeiro que não possamos encontrar na nossa própria casa; tudo o que precisamos esta aqui e agora. Sidarta Gautama, por exemplo, experimentou toda a realidade que necessitava sentado em um único lugar. Ninguém se torna, infelizmente, uma pessoa mais completa e feliz apenas por colocar uma mochila nas costas. Podemos viajar o mundo em busca do que é belo, como bem disse Ralph W. Emerson, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos. A viagem é como a vida; muito mais complexa do que a hipérbole idealizada e comercializável que muitas agências e blogues de viagens tentam nos fazer acreditar e engolir .

Ninguém se torna, infelizmente, uma pessoa mais completa e feliz apenas por colocar uma mochila nas costas. Podemos viajar o mundo em busca do que é belo, como bem disse Ralph W. Emerson, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos.

Viajar para esquecer problemas ou em busca de algo é como aquela parábola sufi na qual um homem santo está buscando, no chão, as chaves que havia perdido:

– Mullá, tem certeza que deixou cair por aqui? – perguntou um jovem.

– Não – respondeu o santo – A perdi perto da minha casa.

– Então, porque o senhor está buscando neste lugar?

– Ora, porque aqui há muito mais luz!

Mas, ainda assim … mesmo com a importância da contemplação, o deslocamento continua sendo uma escola e tanto. É a minha maneira, por exemplo, de sair da zona de conforto e de colocar a minha Salvador natal em perspectiva. É uma das formas de relembrar a mim mesmo a importância de estar sempre alerta; de perceber, na prática, que não há argentinos e brasileiros ou americanos e russos; somos todos humanos, acima de tudo. Viajar me ensina a realidade relativa das coisas.

O movimento físico, em si, não é o fundamental. Porém, ele pode ser um catalisador na medida em que ilumina aspectos antes insuspeitáveis de nós mesmos e, como consequência, do mundo exterior. O ato de viajar não é a fonte desta sabedoria, mas o seu combustível. Aquilo o que busco já está dentro de mim. E as viagens são os instrumentos que ajudam a dar-me conta disto.

O Buda encontrou tudo o que precisava sentando-se, sereno, sob a Árvore Bodhi5. Porém, inclusive ele, precisou viajar durante seis anos para chegar a esse ponto de lucidez e consciência. “Para viajar basta existir”, diria Fernando Pessoa. Mas a grande jornada é reconhecer onde realmente estamos durante todo este tempo. Perceber que, antes mesmo de partir, já haveremos chegado.

Como havia dito Esteve em uma das frases que mais me marcou naquele breve encontro de silêncio e palavras: “O Ego não realizará nunca: já exercemos na plenitude. O coração da prática é ir eliminando as ilusões e enxergar a realidade de uma maneira mais direta e clara. Não é preciso fazer nada para isto, apenas dar-se conta desta dádiva”. Este é, para mim, um belo presente e nossa maior pátria.

 

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1 “A Biblioteca como Espelho” em espanhol. Trata-se de uma oficina de autoconhecimento destinada para os amantes dos livros; a cada sessão liámos um conto – Tchecov, Borges, Mishima, Casares, Lispector e muitos outros – porém, essa era apenas uma boa “desculpa”, por assim dizer, para conversamos sobre nós mesmos.

2 “Caminho até o Silêncio”.

3 El Xiprer é uma entidade solidária em Granollers que ajuda pessoas carentes e em situações desfavorecidas.

4 Sessão de perguntas e respostas entre os alunos e um monge zen.

5 A Árvore Bodhi foi a árvore debaixo da qual Sidarta Gautama, o buda histórico, alcançou a iluminação.

 

 

Todas as fotos que ilustram o texto são do talentoso fotógrafo Alexandre Furcolin Filho.

Vale a pena visitar a página dele e acompanhar o seu belíssimo trabalho. Recomendo!

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2 Comments O ato de viajar em um sentido mais profundo

  1. Davi Carneiro

    Valeu, Paulo. Sou suspeito para falar do livro do Humet, mas posso dizer que é uma pequena preciosidade, principalmente para quem gosta de meditar.

    Outro abraço peregrino 🙂

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