Portal da Imprensa – Perguntas e respostas sobre Jornalismo de Viagens

1) De que forma um jornalista que deseja atuar na editoria de turismo deve se preparar? Há alguma dica?

 

Em primeiro lugar, o profissional que deseja atuar como Jornalista de Viagens deve fazer dessa escolha um compromisso pessoal e profissional. Não dá para ficar limitado ao discurso de “vou aproveitar a viagem de férias e fazer uma reportagem turística”. O Jornalismo de Viagens vai além e tem um cunho mais profundo. São múltiplos os ângulos que podemos abordar, incluindo temas históricos, geográficos antropológicos, etc; passando pela arquitetura, a gastronomia, histórias com enfoque humanista, etc; até chegar, finalmente, ao turismo.A comunicação viajante é uma das mais antigas; o relato que o nômade contava ao redor do fogo depois do seu regresso. “Isso é o que eu vi” e, assim, eram compartilhadas as notícias do mundo exterior. “Os homens do outro lado do vale são iguais a gente!” ou “Não se parecem nada conosco!” O relato de viagem está, portanto, na essência de toda boa reportagem.

Seguindo a frase budista de que “não é possível transitar um caminho até não haver você mesmo se convertido nele” um importante requisito para se tornar um Jornalista de Viagens é viajar. E essa viagem não precisa ser, necessariamente, para um destino exótico do outro lado do mundo. Pode ser para uma localidade perto de onde você mora ou até para um bairro da sua cidade no qual você nunca foi antes. Ser um viajante é antes de tudo um estado de espírito; sair da zona de conforto, ir de encontro ao diferente, estar aberto à pessoas e à outras maneiras de encarar o mundo. É importante ter em mente que o trabalho do jornalista de viagem começa muito antes da viagem em sí. O trabalho de pesquisa e produção na busca de boas histórias é tão importante quanto a realização da reportagem.

 Outras dicas importantes vão desde fazer um curso de especialização na área; estar atento à possíveis boas histórias; aprender um idioma estrangeiro; aprofundar os conhecimentos em fotografia, video-jornalismo, não-ficção-criativa; e criar um blog de jornalismo de viagens.

Ser um viajante é antes de tudo um estado de espírito; sair da zona de conforto, ir de encontro ao diferente, estar aberto à pessoas e à outras maneiras de encarar o mundo.

 

2) Como se preparou para despontar como uma das referências do jornalismo de turismo? Foi algo planejado?

 

Eu sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia e trabalhei como repórter para Editora Abril, além de revistas e jornais da minha cidade natal, Salvador. Porém meu interesse pelas viagens vem de antes.

Meu trabalho de conclusão de curso foi um livro de crônicas de viagens realizadas durante um ano de intercâmbio na Universidade do Minho, em Portugal. A experiência como mochileiro narrada no livro deu origem ao meu blog de viagem que, atualmente, faz parte da Rede Brasileira de Blogueiros de Viagens (RBBV).

O passo mais importante, porém, foi a decisão de fazer uma especialização na área. Em 2012, fiz parte da primeira turma do Máster de Periodismo de Viajes da Universidade Autônoma de Barcelona. Busquei, também, aprofundar meus conhecimentos em fotografia, não-ficção criativa, literatura de viagens e nas tendências do jornalismo digital e móvel.

 

3) Sobre mercado; quais são as exigências de cursos de especialização presentes para um jornalista de turismo?

 

Tradicionalmente, o mercado do Jornalismo de Viagens abrange a produção de conteúdo para revistas impressas, cadernos de jornais, televisão, guias de viagens, além de assessoria de imprensa para o trade turístico e órgãos oficiais, como Secretarias e Ministérios.

Com a internet veio a possibilidade de produzir reportagens para sites, blogs, revistas online, aplicativos, guias digitais, canais para YouTube, dentre outros.

O mercado ainda é fechado no Brasil e, de modo geral, pouco explora o potencial da área. Por outro lado, o brasileiro nunca viajou tanto como nos últimos anos e existe a demanda do público por conteúdo de qualidade. Acredito que estamos em um momento propício para novas iniciativas tanto dos grandes meios de comunicação  quanto para projetos menores e pessoais.

É necessário desmitificar o jornalismo de viagem. Existe o ideal do trabalho do sonhos, onde o jornalista é bem pago para explorar lugares exóticos e paradisíacos. A realidade, porém, é de muito trabalho como em qualquer outra editoria. Muitos acreditam que o estamos “em férias permanentes”, no entanto, duvido que algum jornalista de viagem defina este trabalho assim. A definição é mais parecida com o que escreveu Tim Leffel no livro Travel Writting 2.0:  “o jornalista de viagem é aquele que está trabalhando enquanto todos ao redor estão em férias”.

É necessário desmitificar o jornalismo de viagem. Existe o ideal do trabalho do sonhos, onde o jornalista é bem pago para explorar lugares exóticos e paradisíacos. A realidade, porém, é de muito trabalho como em qualquer outra editoria.

4) Quais cursos indicaria para um jovem estudante? Por quais motivos um jornalista deve fazer a cobertura de turismo no Brasil?

Eu indicaria, com conhecimento de causa, a minha especilização: o Máster en Periodismo de Viajes na Universidade Autônoma de Barcelona. Acima de tudo, porém, eu indicaria, uma reflexão sobre o tipo de jornalista de viagem que você pretende ser; não apenas qual o seu perfil profissional, mas também qual o ninho específico você pretende atuar. Após essa definição, indicaria virar um especialista nesta área.

A cobertura turística no Brasil é um prato cheio para qualquer profissional de comunicação. Além de termos um país riquíssimo, com paisagens naturais incríveis, o povo brasileiro é único no mundo graças à sua diversidade cultural. Existe algum preconceito bobo na cabeça do brasileiro de que chique mesmo é ir pra Europa. Na verdade o maior luxo é viajar pelo nosso país. Mudar esta mentalidade e, ao mesmo tempo, exigir maiores investimentos na infraestrutura turística do Brasil são alguns dos maiores desafios do jornalismo de viagens.

6 Comments Portal da Imprensa – Perguntas e respostas sobre Jornalismo de Viagens

  1. Raquel Ramos

    Li sua entrevista, enquanto procuro embasamento para uma reportagem, em que escolhi viagem/turismo, como trabalho para faculdade de jornalismo que estou fazendo. Parabéns pelo texto. Simples, esclarecedor e didático. Abraço.

  2. Davi Carneiro

    Olá, Raquel.

    Obrigado pelo comentario.

    Boa sorte e se precisar de alguma ajuda pode contar comigo.

    atenciosamente,

    Davi

  3. Bruna

    Olá Davi,
    Gostaria de saber como foi sua experiência em Barcelona e sobre o curso realizado.
    Você poderia me contar um pouco mais? Obrigada 🙂

  4. Kassia

    Olá Davi. A muito tempo venho procurando algo tão completo e que me esclarecesse tanto sobre essa profissão, e encontrei aqui!
    Estou para lançar minha nota do enem em uma faculdade de jornalismo e estou com muita dúvida de qual devo escolher. Minha visão de futuro é ter um blog e quem sabe um canal no you tube que abordaria o turismo. O que você me indica aqui no Brasil? Me ajuda kkk
    Abraços

  5. Nathália

    Olá! gostei muito de tudo o que li e despertou cada vez mais meu interesse. Gostaria de saber se há uma versão em português o livro que você cita pois infelizmente não achei e acabei de decidir que jornalismo de viagem será o tema do meu TCC, estou no 6º semestre do curso e prestes a ter a primeira orientação, por isso ainda estou meio perdida e não sei qual foco dar pois parece um tema muito abrangente e extremamente interessante. Aguardo sua resposta. Obrigada 🙂

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