Crônica de uma renúncia

Era uma pequena vila na beira do deserto. E quando digo pequena, quero dizer realmente pequena: havia algumas dúzias de casas, uma mesquita modesta, um único mercadinho e a rua principal; mais ou menos um quilômetro e meio – ou dez minutos a pé – e chegava-se ao seu fim.

Tudo por ali cheirava à terra porque tudo naquele lugar era feito da terra. Pisava-se em ruas de terra; as paredes das casas eram cobertas com terra; comia-se cuscuz em panelas feitas de terra; sentava-se e dormia-se sobre o solo de terra batida. Era aquela uma pequena vila ou um grande formigueiro humano?

Para chegar até ali, atravessei uma paisagem desértica que era um vale vermelho rodeado de pequenos montes, cactos e pedregulhos. Quilômetros e mais quilômetros de pó, calor, securas e cenários de areia. A única coisa que parecia viva era o motor do nosso ônibus velho que batia alto num tac-tac-tac surdo e insistente.

O motorista era uma árabe gordo queimado do sol. Puxou um lenço do bolso e, sem tirar o cigarro da boca, secou a testa e o nariz. O rádio de pilha chiava algo que lembrava o Reginaldo Rossi, só que em árabe. Éramos poucos passageiros. Todos estavam calmos, em um estranho estado de sonolência. Eu parecia ser o único preocupado com aquela combinação entre lugar-isolado-no-meio-do-deserto mais barulho-estranho-no-motor-de-um-ônibus-velho.

O meu estômago roncava quando entramos naquele vilarejo de terra. Vi, entre suas poucas casas, algo parecido com um restaurante. Fiz sinal de pare. O condutor gordo resmungou alguma coisa parecida ao grunhido do cachorro rabugento do desenho animado. Desci do ônibus ali mesmo. Fiquei parado naquela fronteira entre a estrada e a rua de terra batida, vendo como o motorista conduzia sem a mínima perícia e levava o ônibus de volta ao caminho. Desapareceria minutos depois em meio a uma cortina espessa de poeira.

Tudo por ali cheirava à terra porque tudo naquele lugar era feito da terra. Pisava-se em ruas de terra; as paredes das casas eram cobertas com terra; comia-se cuscuz em panelas feitas de terra; sentava-se e dormia-se sobre o solo de terra batida. Era aquela uma pequena vila ou um grande formigueiro humano?”davi carneiro

O sol do deserto começou a arder em minha cara quando virei em frente à mesquita no caminho até o restaurante. Lembro-me que fazia muito calor, apesar de ser quase às cinco da tarde. O vento levantava o pó da terra e o ar chegava ao rosto numa baforada de forno quente.

O lugar, que acumulava as funções de mercadinho e restaurante, se resumia a um pequeno cômodo retangular com portas estreitas e quatro buracos que serviam de janelas. A luz entrava por uma delas e iluminava a mesa cor ocre e as altas paredes revestidas com barro.

foto: MAMEN MORENO/ lutum.es

foto: MAMEN MORENO/ lutum.es

O dono era um senhor baixinho de pele morena, bigode e expressão simpática. Vestia um djellaba azul; uma espécie de bata comprida com mangas largas e capuz de ponta bicuda. Eu disse Salaam Aleikum arrastando cada letra na tentativa da pronúncia correta. Ele me respondeu com um sorriso afetuoso.

Eu tinha pedido uma salada no momento em que o jeep 4×4 passou pela janela. A porta do restaurante se abriu poucos minutos depois e entrou um casal de ingleses. Olharam desconfiados, cumprimentaram o dono e sentaram na mesa ao lado. Pediram cuscuz com frango. Éramos os únicos no local; eu disse “hi1 e logo começámos um bate-papo.

Ela se chamava Susan, tinha vinte e nove anos e sardas por todo o rosto. Era ruiva e usava óculos aviador com lentes brilhantes. O nome dele era Wilson, trinta e dois, alto e muito magro, com um nariz que parecia uma barbatana de tubarão. Eles me contaram que eram médicos, moravam em Manchester e que se casaram há poucas semanas. Se hospedariam em um spa termal no meio do deserto.
O dono do restaurante se aproximou. Sejam bem-vindos. É um prazer recebê-los, disse comBDR3 435 IMG_2362_1024x682 um sorriso atento enquanto me servia a salada. Ele se chamava Hassan, falava fluentemente francês e inglês, era cordial e fazia o tipo boa praça. Ficámos conversando sobre temas variados; os Jogos Olímpicos que acontecerão no Brasil, os encantos do deserto e sobre alguns escritores britânicos de viagens, que eu admiro, como Patrick Leigh Fermor, Bruce Chatwin e Jan Morris.

Hassan contou que vinha de uma família de advogados e que tinha feito parte dos seus estudos em Paris. Ele tinha uma vida próspera na capital, mas não se sentia feliz. Deixou as comodidades da cidade grande e se mudou para aquela pequena vila. Ele e a sua mulher, Fadilah, começaram a trabalhar com os turistas pelo deserto.

O senhor estendeu um cartão de visita que, junto ao desenho de um camelo, escrevia:

 

Hassan and Fadilah Adventure – Saara Tours

 

Normalmente podemos encontrar os dois no deserto, organizando expedições; porém, quando não aparecem muitos turistas, eles ajudam os pais da Fadilah neste pequeno restaurante.

Um velho árabe com uma barba longa e branca entrou pela porta principal e aconchegou-se ao balcão. Murmurou alguma coisa. Hassan se levantou, caminhou até a cozinha, voltou com um prato de sopa. O velho arrumou a sua magreza na mesa ao lado e foi tomando o caldo em largas colheradas. Hassan recebeu, deu o troco, voltou-se para o balcão que dava para a cozinha.

As ruas de terra continuavam em silêncio. O vento chiou pela janela despenteando o cabelo ruivo de Susan. Não entendo a atitude de pessoas assim, ela disse baixinho. Eu nunca poderia abrir mão da vida na capital para morar em um local tão isolado.

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O rapaz inglês tirou o óculos e esfregou na blusa. Verdade, ele disse, somente por uma proposta muito boa, algumas centenas de libras, talvez. Eu não estive de acordo com a opinião mas, ao mesmo tempo, entendia o seu ponto de vista. Aquela era uma vila perdida do mundo, onde ir ao supermercado significava enfrentar um percurso de mais de uma hora por uma estrada cheia de buracos até alguma cidade maior. Era preciso coragem para fazer uma mudança assim, mesmo com a possibilidade de trabalhar com o turismo. Antes de abrir a boca para dar alguma opinião, dei-me conta de que o sol começava a se por lá fora. Propus aos dois que fôssemos assistir.

Algumas aves voavam ao longe e o céu do deserto foi tomando dezenas de tons – laranja, púrpura, vermelho, dourado – com proporções incríveis pois não havia nenhum obstáculo nos muitos quilômetros de deserto que separavam o horizonte e nós. Foi um dos pores do sol mais intensos que vi na vida.

Então começou a anoitecer. E junto com a escuridão vieram as primeiras estrelas. Ainda não haviam casas com as luzes acessas e, em poucos minutos, a escuridão sobre nós era absoluta. A noite no deserto havia chegado depressa e o céu, imenso, se espalhava sobre a terra apagada. E, de repente, nasceram os pontos luminosos, muitos, cintilantes; um império de astros paralisados no tempo. Em tão pouco tempo haviam tantas estrelas que eu, praticamente, podia sentir a Terra se movendo através delas.

Hassan se aproximou ao nos ver contemplando a noite. Quando vim aqui a primeira vez, disse como se adivinhasse aquele comentário, eu não esperava ficar. Às vezes o dinheiro aperta e eu penso em voltar para o meu antigo emprego. Mas, sinto-me feliz aqui. Além disso, o deserto me cativou. Custaria muito deixar de ver este pôr do sol … ou, renunciar à possibilidade de deitar, todas as noites, sob um céu tão estrelado, concluiu apontando para cima.

Meia hora depois nos despedimos de Hassan e daquela cidadezinha. Combinei de encontrar com ele no dia seguinte no deserto, assim poderíamos conversar mais. Aproveitei a carona e, sob o olhar de mil estrelas, segui com Wilson e Susan pelo caminho de areia que levaria até a próxima cidade.

 

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1 “Oi” em inglês.

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