Como fazer valer cada palavra ao escrever sobre pessoas, lugares e coisas

NÃO ACREDITO em formulas mágicas quando o assunto é escrever. Provavelmente o melhor caminho para aprimorar o seu estilo seja apenas um: ler, ler e ler. Ler de tudo sobre viagens. Os grandes escritores de viagens. Os não tão famosos assim. Revistas. Blogs. Guias. Catálogos. Tudo. E o máximo que puder. Pode parecer conselho batido mas a verdade é que bons escritores são antes de mais nada bons leitores.

Mas, apesar de não haver uma receita prévia, existem algumas dicas que podem nos ajudar a melhorar nossas escrituras de viagens. No texto anterior falei um pouco sobre o que considero uma boa escrita de viagens e sobre a importância de encontrar o nosso foco pessoal.  Nesse post vou compartilhar um trecho do artigo Como fazer valer cada palavra ao escrever sobre pessoas, lugares e coisas publicado pela  IJNET – Rede de Jornalistas Internacionais, que sempre tem excelentes artigos para comunicadores.

O texto dá algumas dicas de como uma boa descrição ou a utilização detalhes e anedotas podem enriquecer um texto de viagens. Pois bem, vamos a ele:

Como fazer valer cada palavra ao escrever sobre pessoas, lugares e coisas

Se você quer dar vida a uma matéria em um espaço pequeno — digamos, 500 palavras ou menos — tente viajar no tempo a sua sala de aula na terceira ou quarta série. Naquela época, seu professor provavelmente pediu para você escrever artigos curtos sobre uma pessoa, lugar ou coisa memorável.

Ele ou ela provavelmente aconselhou a identificar um tema e restringir o escopo da sua história, selecionando um personagem, um ambiente ou um objeto relevante para o tema. Com isso em mente, aqui estão algumas dicas para descrever pessoas, lugares e coisas.

Escrevendo sobre pessoas

Considere como Pico Iyer, um dos maiores escritores de viagens, foca em uma pessoa em um artigo no New York Times sobre uma loja de conveniência em Nara, Japão:

“A única pessoa que chegou a encarnar para mim todo o cuidado com o detalhe e solicitude que eu amo no Japão é, de fato, a moça da caixa registradora em Lawson. Pequena, de cabelo curto e perpetuamente irritada, Hirata-san correu para o fundo da loja para buscar cupons para mim que me deram dez centavos de desconto da sobremesa.”

Como Iyer fez um retrato da Sra. Hirata em algumas frases? Algumas dicas:

Use alguns detalhes físicos e maneirismos para ajudar o leitor a ver o personagem. Entendemos que a Sra. Hirata é “pequena, de cabelos curtos e perpetuamente irritada”. Mostre a pessoa em movimento, quando está ocupada e interagindo com os outros. Sra. Hirata corre para ajudar o narrador, e reconhecemos sua solitcitude. Sra. Hirata curva-se para cumprimentar um gangster, e reconhecemos sua personalidade deferente, bem como sua capacidade de lidar com todos os tipos de pessoas.

Escrevendo sobre um lugar

Anthony Bourdain, chef de cozinha e personalidade de TV, é especialista em escrever sobre lugares distantes, muitos desses pouco ideais. Veja como ele descreveu um hotel em Pailin, Camboja, no seu livro “A Cook’s Tour” de 2001:

“Imagine isto: uma única cama com o colchão meio afundado, um televisor quebrado, mostrando apenas imagens difusas de kick-boxing tailandês, um piso de cerâmica com azulejos até a metade da parede e um dreno no meio — como se todo o quarto fosse projetado para ser limpo com uma mangueira rápida e eficiente. Há uma lâmpada, uma cômoda torta e um pente de plástico de cortesia com fios de cabelo de outra pessoa…”

Como é que Bourdain usa um parágrafo para nos colocar no quarto do hotel? Algumas dicas:
Use detalhes — quanto mais exato, melhor. O escritor nos apresenta não apenas o televisor quebrado, mas o que está no programa — kick-boxing tailandês–, não apenas o chão, mas os azulejos até a metade da parede… E depois há o detalhe que mais se destaca para mim: o pente de plástico com o cabelo alguém do cabelo…

Escrevendo sobre uma coisa

Descrever o objeto é uma outra maneira de restringir o escopo de sua história. Vamos estudar uma passagem escrita pelo escritor de viagens e romancista Paul Theroux, que ama trens e ferrovias. Por exemplo, veja como ele descreveu um vagão-leito de um trem no seu livro “The Great Railway Bazaar”:

“O romance associado com o vagão-leito deriva da sua extrema privacidade, combinando as melhores características de um armário com o movimento para a frente. Seja qual for o drama que acontece neste quarto, é intensificado pelo movimento com a paisagem passando pela janela: um ondulação de morros, a surpresa de montanhas, uma ponte metálica barulhenta, ou a visão melancólica de pessoas em pé sob lâmpadas amarelas. E a noção de viagem como uma visão contínua, a sucessão de uma grande excursão de imagens memoráveis ​​ao longo de uma terra redonda — sem nenhuma distorção vazia do ar ou do mar — só é possível em um trem.”

Como Theroux deu vida a um vagão-leito? Algumas dicas:

Compare o objeto a algo que os leitores possam se relacionar. Theroux usou duas imagens para nos ajudar a ver vagão-leito: “armário” e “quarto em movimento…”
Mostre a relação do objeto com o ambiente em volta. Theroux apresentou o vagão como um veículo de “extrema privacidade”, mas também mostrou a paisagem que passa: “uma ondulação de morros, a surpresa de montanhas, uma ponte metálica barulhenta, ou a visão melancólica de pessoas em pé sob lâmpadas amarelas….”

Conecte o objeto com o tema da sua matéria. Theroux desenvolveu o tema de romance nesta passagem e chegamos a compreender esse romance através do vagão-leito — o “quarto em movimento.”

Esse é um trecho do artigo integral, disponível (em inglês) aqui

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