Como contar uma boa história de viagem – Escrita criativa viajante com Cecília Meireles

Como contar uma boa história de viagem – Escrita criativa viajante com Cecília Meireles

Pouca gente sabe, mas Cecília Meireles, além de poetisa maior, foi também uma excelente cronista de viagens.

Compartilho com vocês uma das minhas preferidas: “a bela e as feras”, sobre uma das experiências de Cecília pelo México. Um excelente exemplo de como contar uma boa história de viagem de forma poética, sensível e utilizando as ferramentas da literatura.

A crônica abaixo faz parte do primeiro livro dos três volumes de Crônicas de viagem da autora, lançados num elegante box pela Global Editora. Fica a dica!

Boa leitura!

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A Bela e as Feras

* por Cecília Meireles
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Isso foi um domingo, no México.
Tínhamos um chofer entendido em sociologia, turismo e pintura. Em sociologia, fez-me um resumo da história política de seu país; em pintura, declarou-me não estar de acordo com Diego Rivera; em turismo, levou-nos a todos os sítios por ele julgados pitorescos e, aquele sábado, recomendou-me com fervor de especialista o espetáculo do dia seguinte.
Foi difícil arranjar lugares. Sábado à tarde, já estavam quase todos vendidos. Pareciam-me muitos caros; mas disseram-nos, ao vende-los, que seria uma coisa soberba – como garantindo que não nos arrependeríamos daquele emprego de capital. A moça era peruana. Muito jovenzinha. Junto com o troco dos bilhetes, deram-nos a sua idade exata: apenas dezessete anos.
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Não fez o sol que eu desejava. Muito ao contrário: havia nuvens e nuvens que se alastravam lentamente, fazendo entardecer antes do tempo. Lembro-me do vento que movia um pouco a areia do caminho. “Tem cuidado com o relógio!”, disseram por perto. Outros riram-se. Falava-se espanhol, inglês, português. As senhoras estavam encantadas com os seus vestidos. Os homens, muito nervosos.
Apregoavam coisas pela porta. Lembro-me de papéis coloridos: vermelhos, amarelos, azuis, que o vento à força desenrolava. Lembro-me de refrescos. E era tão grande o lugar, que todos conversavam, discutiam, riam-se – e tudo parecia silêncio. Viam-se as nuvens passar muito grandes, por cima. Por entre os bancos, apareciam e desapareciam indiozinhos mexicanos, de olhos maliciosos, sorriso imperceptível.
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Ela era delgada, branca e loura. Tinha dezessete anos. Estava toda de preto. Montava admiravelmente. Quando levantou a cabeça para agradecer os aplausos, sob as abas retas do chapéu, de tira passada pelo queixo, brilharam seus grandes olhos claros, exatamente como duas águas-marinhas.
Deu uma volta pela arena, exibindo por todos os lados sua esbelta e sóbria elegância. De costas, via-se-lhe a trança de ouro suave enrolada sobre a nuca. A multidão já começava a uivar. Um aficionado deu início ao espetáculo, atirando-lhe aos pés um ramo de flores.
Sendo tão delgada e branca e loura, ela me fazia pensar num modelo de santa gótica. Mas era toureira. Toureira.
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O touro negro entrou distraído e pacífico. Não olhou para o público nem para a gente da praça. Tanto que as roupas de lantejoulas dos peões ficaram numa sombra lamentável, sem nenhuma expressão.
O touro vinha meio adormecido no seu corpanzil lustroso, e seus olhos não tinham previsões de nada.
A multidão debruçou-se para a cena. Todos os idiomas se calaram. Ninguém mais se lembrou de avisar: “Tem cuidado com o relógio!” E as nuvens certamente pararam desmaiadas por cima da arena.
A toureira começou sua dança de tentação. Esvoaçava diante do touro, tornando alado o cavalo. Com seus ares de anjo, tocava-o com a lança, feria-lhe o negro corpo lustroso, e a cada instante eu pensava que ela tratava de o desencantar. Pensava que ela era Circe, pensava coisas sobrenaturais, pensava que aquele grande corpo ia cair num dado momento como um pesado vestido, um disfarce, um esconderijo, uma praga – e de dentro da Fera surgiria um moço delgado e louro que ajudaria a descer do cavalo a jovem amazona e a conduziria, pela praça, de braço dado, ao som da música, sob uma chuva de flores…
Mas via apenas a grossa pasta de sangue brotando das feridas abertas. Ai! como braçadas de cravos vermelhos sobre cetim negro. E a Bela dançando a sua fina dança de anjo e de naja. Os peões sumiam-se. A arquibancada apagava-se. Embaixo e dos lados tudo era como em cima: cinza de nuvens. Só existiam a Bela e a Fera.
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Depois, ela mudou de jogo. Passou a lançar-lhe farpas agudas, de onde se desenrolavam longas fitas de papel de todas as cores. O corpanzil negro já estava muito furioso. O touro resfolegava desesperado. “Por que não te desencantas depressa?”, perguntava-lhe o meu pensamento. Mas seu corpo ia sendo uma ilha negra, toda sulcada por vagarosos rios vermelhos … “Ainda que morresses, valia a pena desencantares-te! Não serás mais a Fera. Nunca mais terás esses olhos ardentes mas cegos. Nunca mais te ferirão assim, para te despertarem, pois estarás para sempre iluminado e vigilante!” Agora, porém, ele já tinha todas as bandarilhas de um lado e de outro, e era uma festa para aquela gente a ondulação das fitas coloridas na ponta das farpas cravadas no touro negro.
A toureira sorria vitoriosa. Como seria o seu rosto se o milagre se desse, e a Fera se transformasse num homem ou num santo?
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Não havia mais nada a fazer senão tourear.
Ela estendeu a capa. Asa vermelha e negra. O touro não entendia nada de asas. Aquele não era o touro enigmático da Assíria … Seu único mistério ia acabar agora, e já estava suspenso entre o vermelho da capa e a cintilação da espada.
A Bela era delgada, branca e loura. Ficava mais loura e mais branca e mais delgada perto da grande Fera negra. Ficava mais pura junto às fontes de sangue que lhe abrira no corpo fatigado. Mais fria diante da fumaça que estertorava em suas narinas. E, no entanto, a Fera agonizante a procurava-a. Que desejava a Fera? Desejava morrer ou desejava matar? Pedia-lhe que a acabasse de liberar, ou queria destruí-la com as pontas dos chifres?
A Bela dançava com a espada e a capa. Que desejava a Bela? Desejava matar? Desejava dar outra vida? Desejaria morrer? Provocava o moribundo. Oferecia-lhe seu corpo de flor, seu corpo de santa gótica, tão leve. A Fera projetava-se e encontrava apenas a asa vermelha da capa aberta.
E esse era o bailado da morte. E a multidão toda muda esperava como um tributo a sua vítima. Qualquer das duas. E a morte mirava a Bela e mirava a Fera.
Então, a Fera decidiu-se: vergou a cabeça, para levantar nos ares o corpo delgado e branco da loura santa gótica.
Então, a toureira decidiu-se: e cravou-lhe a espada, num golpe certeiro.
A Fera caiu como de joelhos. Dos rios de sangue do seu corpo iam rolando cravos encarnados cada vez maiores. A arena encheu-se de um acre perfume de jardim fantástico.
A toureira cumprimentava para um lado e para o outro. Tinha dezessete anos. Delgada, branca, loura. Saíam chispas de estrelas dos seus olhos azuis.
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A multidão uivava, berrava, rosnava. A Fera morrera em silêncio. Já ia sendo arrastada para fora da arena, coberta das flores que enroxeciam sobre a sua imóvel negrura, ainda palpitantes e quentes.
Os homens e as mulheres arrojavam chapéus, flores, casacos, cigarros, despojavam-se de tudo sobre a arena.
O outro devia estar perguntando ao companheiro: “Então, ainda tens o relógio?” Uma senhora americana desmaiou. Abanaram-na com um lenço.
A toureira desapareceu.
As nuvens continuaram a correr pelo céu.
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O segundo touro, esse era cor de bronze. Esse entrou pela arena adentro bufando fogo, à procura da Bela. E a Bela saltou na sua frente, do mesmo modo, como um anjo de tentação.
Esse não vinha de olhos vagos, mas de olhos resolutos, e tinha movimentos bruscos de arremesso para o cavalo que piruetava aqui e ali.
Esse parecia realmente sanguinário, e possuía a vida noção da força e do seu castigo.
Mas a lança da Bela picou todo o seu corpo, e fez nascerem novos rios vermelhos … As mãos da Bela atiraram-lhe novas farpas, enchendo os ares de listras de todas a cores … Quando a espada da Bela se cravou na sua nuca, ele levantou a cabeça robusta e partiu-lhe a espada.
Foi quando a Bela empalideceu. Tornou-se um marfim seu rosto, e sua mão, no ar, se abriu.
A morte encostou-se tanto à Bela, que toda a multidão estremeceu. Todos viram morrer, pálida, os cabelos de outro jorrando, desmanchados … A multidão respirou, sorvendo a imagem da sua vítima.
Aconteceu, porém, que uma nova espada surgiu na mão da toureira. E a morte desprendeu-se do seu peito e abraçou a Fera, que caiu, toda lânguida, para descansar da luta contra a Bela, envolta no veludo de sangue que ia descendo do seu corpo de bronze.
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Lembro-me do rosto branco e azul da toureira. Da sua trança de ouro. Do seu sorriso. Tinha os dentes unidos, numa fila perfeita, e os lábios de fita fina.
Lembro-me do touro negro e do touro de bronze, deitados de bruços, levados para fora da praça, vencidos, arrastados numa prancha… Lembro-me daquele cheiro de sangue, pastoso e forte.
Murmurava comigo: “A Bela e as Feras … a Bela e as Feras …” Em seguida, as Feras desapareciam. Em seguida, desaparecia a Bela … Depois, tudo se misturava. A Bela sorria com o corpo morto das Feras … As Feras choravam no corpo vivo da Bela …
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(Rio de Janeiro, A Manhã, 23 de outubro de 1941)

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