As flores de Anita

2014-06-30 20.42.51

 

Havia semanas em que chovia sem parar em Timisoara, no oeste da Romênia. A velhinha continuava no mesmo lugar, dia após dia, sentada num banquinho, vendendo flores para os transeuntes. Uma imensa árvore a protegia das gotas que caiam em ritmo monótono; mas não era suficiente. O vento frio vinha do rio Bega levantando um amontoado de folhas secas enquanto os estudantes passavam apressados em direção à Universitatea de Vest.

Era uma velinha simpática. Usava óculos de aro grande e uma jaqueta branca de tricô. Tinha o cabelo curto, branquinho, a cara enrugada e um sorriso gentil no rosto. A cada dia aparecia com um tipo de flor diferente: rosas, margaridas, lacramioare, flores do campo e crisântemos. Comprávamos algumas vezes com ela; não tanto pelas flores (que eram lindas, de fato), mais pela expressão satisfeita toda vez que adquiríamos algo. E aquela cena era de uma beleza fugaz e melancólica. A velhinha sentada no banquinho, no mesmo lugar, embaixo da árvore, com o ramalhete colorido na mão.

Algo nela lembrava a minha avô, que estava no Brasil, e iria completar 94 primaveras naquele ano. Eu, que não falava uma palavra sequer em romeno, tinha uma vontade danada de ir até lá, sentar no banco, conversar qualquer coisa sem importância, dar-lhe um abraço.

No início, fiquei um pouco sem jeito, admito; não queria assustá-la, este brasileiro intrometido se metendo na vida alheia. Tomei coragem aos poucos e fomos juntos, eu e Alina, ao seu encontro. Ela estava rodeada de rosas no dia que nos aproximamos. Alina, a interprete, disse que eu a achava uma vovô muito simpática parece que o elogio surtiu efeito: ela abriu um sorriso e fez uma carinha de contente. Contou que se chamava Anita, era uma professora aposentada e vivia perto dali. E que as flores eram do seu jardim.

Ela acrescentou que se sentia sozinha em casa, o marido havia falecido e os filhos já estavam grandes, cada um com a sua vida. No decorrer da conversa, percebemos qual era a razão da Anita sentar ali todos os dias. Não tanto para fazer uma renda extra (ela sempre cobrava pouquinho pelas flores); Anita buscava, acima de tudo, criar a possibilidade de um momento de conexão e calor humano. “Eu gosto de observar a reação das pessoas quando recebem as minha flores”, ela disse. “Muitas vezes são jovens, como vocês, que oferecem para as namoradas ou esposas. Isso me faz bem. Além do mais, acabei fazendo alguns amigos aqui na pracinha …”

Entre outras coisas, mencionei que ela lembrava a minha avô e Anita ficou muito feliz. Pedi para tirar uma foto e dei-lhe um abraço. Ela estava lá, nos próximos dias, todas as vezes que passávamos pelos banquinhos. Acenávamos e ela sorria e nos saudava. Na nossa última conversa, antes de partirmos para Bucareste, Alina perguntou qual era a sua flor favorita. Anita respondeu: “Ah, minha filha, as minhas flores favoritas são todas.”

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