As castanhas da Maria do Céu

 

“♫ … Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem compra leva mais calor p’ra casa … ♫”

A senhora cantarolava a música, baixinho, enquanto remexia a brasa em meio a fumaça branca puxada pelo vento. Maria do Céu era o seu nome, tinha cinquenta e cinco anos; vinte deles dedicados a vender castanhas na Rua das Flores no bairro do Chiado.

Não há outono em Lisboa sem o cheiro das castanhas assadas. Um cheiro adocicado que invadia os narizes e me fez recordar coisas antigas e pessoas distantes. Lembranças do outro lado do Atlântico. Cuidadosamente, Maria passou o fruto na água para tirar o pó, secou num pano e depois o colocou no fogo brando. Pedi-lhe uma dúzia daquelas castanhas perfumadas.

O ponto da Dona Maria ficava a poucos quilômetros da A Brasileira: o ilustre café literário onde Fernando Pessoa e seus companheiros fundaram a revista Orpheu e os grandes movimentos de vanguarda da Literatura portuguesa. Mais cedo, naquela manhã fria de outono, eu havia tomado um bom galão[Café típico português feito de café expresso e a espuma do leite.] em companhia da estátua de um dos meus poetas favoritos.

 

 

Depois do café, segui caminho até a Rua da Saudade que está no topo de uma das colina da cidade, onde se pode ver o imponente Castelo de São Jorge. Os turistas geralmente caminham apenas até a rua debaixo e detendo-se diante da bela catedral da Sé. Eu, que estava num estado nostálgico – ai que saudades tenho da Bahia! – segui mais adiante, poucos metros a esquerda, para ver aquela pequena viela de nome tão sugestivo (entender a saudade é entender a alma lisboeta). E do alto daquela ruazinha, o olhar abraçava boa parte de Lisboa e a foz do Tejo. E um pouco mais além, via-se o oceano Atlântico e o horizonte infinito.

 

Foi no retorno ao albergue que encontrei por acaso a Dona Maria. Fernando Pessoa na A Brasileira, a Rua da Saudade no pôr do sol (o entardecer é a hora sagrada da saudade), Maria do Céu e a Rua das Flores. Havia uma bruma suave no ar e Lisboa me pareceu, por si só, uma cidade-poema, como as cidades de Calvino, onde os conceitos geográficos se tornam símbolos da psique humana.

A data do encontro: onze de novembro, dia de São Martinho. A capital estava em festa. A tradição em Portugal manda celebrar à volta de uma fogueira, beber jeropiga, comer castanhas e entoar antigas canções. Durante a tarde, eu havia ficado ali, sentado em num banquinho, observando o tempo passar e sentindo Lisboa pelo seu cheiro. Um aroma adocicado, misturado com a fumaça, e que vinha da Praça Duque Saldanha, da Avenida da Liberdade, do Rossio, da Rua Augusta … e parecia envolver a cidade inteira.

Conta-se que São Martinho, um soldado romano, viu um mendigo seminu, pedindo esmola. Era um dia frio e de fortes ventos. O soldado, padroeiro da festa, parou o seu cavalo, cortou a capa que o protegia e a entregou gentilmente ao pedinte do caminho. Neste momento, a tempestade se desfez num piscar de olhos e o sol logo aqueceu o cavaleiro solidário. Um verdadeiro milagre. Daí a lenda do verão em pleno frio do outono.

E o outono por aqui é sinônimo de castanhas assadas. Quando veem as folhas caindo, as pessoas dizem “Oh, o verão acabou!” e as folhas já não são mais folhas; elas significam o outono inteiro. O mesmo vale, para estes frutos e os seus vendedores ambulantes, na capital portuguesas; cada um deles amplia o seu sentindo para anunciar o final do verão e a chegada da nova estação.

Dona Maria me explicou que as vendas não andavam boas. Estávamos nos piores anos da crise financeira portuguesa.

– A castanha é de boa qualidade, as pessoas gostam, só que não há dinheiro. – contou a senhora com a voz triste.

– Acabo vendendo três a cinquenta cêntimos pois os idosos dizem não podem mais comprar. – acrescentou.

A expressão no seu rosto era sóbria e um pouco vaga.
– São muitos os que perderam suas casas, suas economias com a crise … Isso parte cá o meu coração.

A vendedora deu um golpe horizontal com faca sobre a parte mais clara do fruto e o colocou para cozinhar com um pouco de erva doce e sal, que deixa sua casca como que pintada de um branco suave. Rodou a manivela para aumentar o calor da brasa. O sol havia se despedido e Lisboa foi escurecendo por graus, como num teatro.

– É uma pena, eu respondi.

A senhora permaneceu alguns minutos sem falar nada até que começou a dizer, bem devagar, num desabafo repentino:

– O meu marido partiu faz pouco mais de um ano …, sua voz saiu fraca, quase um murmúrio. – Ele não queria nem ouvir falar de dinheiro de seguro, só desejava saber de trabalhar, continuou.

– Dois anos desempregado o derrubaram, uma pneumonia o colocou de cama e a tristeza não lhe deu forças de recuperar. – Maria manteve a cabeça baixa, o olhar perdido; rodava lentamente aliança no dedo anelar da mão esquerda.

– A depressão levou um homem bom, honrado e trabalhador.

A vendedora voltou a mexer no carvão. Estava num modo tristonho de certos entardeceres. Pouco depois, recomeçou a cantar a música das castanhas, sem elevar o tom, enquanto alimentava o braseiro. O fogo foi ficando mais intenso; como se Dona Maria desejasse aliviar o frio da noite que caia sobre a cidade.

“Mas, não há de quê”, Dona Maria completou minutos depois ao me entregar a dúzia, num saquinho que custou dois euros. “Assim como as castanhas avisam o outono, continuamos esperando os sinais da primavera … que este inverno passe logo e que a sorte volte a florescer novamente para o povo português … aguentaremos firme até lá.”

E enquanto a primavera não vinha, Dona Maria do Céu continuava cantarolando em meio à fumaça que se confundia com a névoa atlântica da capital Lisboeta:

“♫ … Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem compra leva mais calor p’ra casa … ♫”,

 

São muitas as coisas que eu não lembro daquele onze de novembro, dia de São Martinho, porém, todas as vezes que penso naquela viagem à Lisboa, eu me lembro, esperançoso, da Dona Maria e do cheiro das suas castanhas.

Como contar uma boa história de viagem – Escrita criativa viajante com Cecília Meireles

Pouca gente sabe, mas Cecília Meireles, além de poetisa maior, foi também uma excelente cronista de viagens.

Compartilho com vocês uma das minhas preferidas: “a bela e as feras”, sobre uma das experiências de Cecília pelo México. Um excelente exemplo de como contar uma boa história de viagem de forma poética, sensível e utilizando as ferramentas da literatura.

A crônica abaixo faz parte do primeiro livro dos três volumes de Crônicas de viagem da autora, lançados num elegante box pela Global Editora. Fica a dica!

Boa leitura!

*

 

 

A Bela e as Feras

* por Cecília Meireles
*
Isso foi um domingo, no México.
Tínhamos um chofer entendido em sociologia, turismo e pintura. Em sociologia, fez-me um resumo da história política de seu país; em pintura, declarou-me não estar de acordo com Diego Rivera; em turismo, levou-nos a todos os sítios por ele julgados pitorescos e, aquele sábado, recomendou-me com fervor de especialista o espetáculo do dia seguinte.
Foi difícil arranjar lugares. Sábado à tarde, já estavam quase todos vendidos. Pareciam-me muitos caros; mas disseram-nos, ao vende-los, que seria uma coisa soberba – como garantindo que não nos arrependeríamos daquele emprego de capital. A moça era peruana. Muito jovenzinha. Junto com o troco dos bilhetes, deram-nos a sua idade exata: apenas dezessete anos.
*
*
Não fez o sol que eu desejava. Muito ao contrário: havia nuvens e nuvens que se alastravam lentamente, fazendo entardecer antes do tempo. Lembro-me do vento que movia um pouco a areia do caminho. “Tem cuidado com o relógio!”, disseram por perto. Outros riram-se. Falava-se espanhol, inglês, português. As senhoras estavam encantadas com os seus vestidos. Os homens, muito nervosos.
Apregoavam coisas pela porta. Lembro-me de papéis coloridos: vermelhos, amarelos, azuis, que o vento à força desenrolava. Lembro-me de refrescos. E era tão grande o lugar, que todos conversavam, discutiam, riam-se – e tudo parecia silêncio. Viam-se as nuvens passar muito grandes, por cima. Por entre os bancos, apareciam e desapareciam indiozinhos mexicanos, de olhos maliciosos, sorriso imperceptível.
*

*
Ela era delgada, branca e loura. Tinha dezessete anos. Estava toda de preto. Montava admiravelmente. Quando levantou a cabeça para agradecer os aplausos, sob as abas retas do chapéu, de tira passada pelo queixo, brilharam seus grandes olhos claros, exatamente como duas águas-marinhas.
Deu uma volta pela arena, exibindo por todos os lados sua esbelta e sóbria elegância. De costas, via-se-lhe a trança de ouro suave enrolada sobre a nuca. A multidão já começava a uivar. Um aficionado deu início ao espetáculo, atirando-lhe aos pés um ramo de flores.
Sendo tão delgada e branca e loura, ela me fazia pensar num modelo de santa gótica. Mas era toureira. Toureira.
*
*
O touro negro entrou distraído e pacífico. Não olhou para o público nem para a gente da praça. Tanto que as roupas de lantejoulas dos peões ficaram numa sombra lamentável, sem nenhuma expressão.
O touro vinha meio adormecido no seu corpanzil lustroso, e seus olhos não tinham previsões de nada.
A multidão debruçou-se para a cena. Todos os idiomas se calaram. Ninguém mais se lembrou de avisar: “Tem cuidado com o relógio!” E as nuvens certamente pararam desmaiadas por cima da arena.
A toureira começou sua dança de tentação. Esvoaçava diante do touro, tornando alado o cavalo. Com seus ares de anjo, tocava-o com a lança, feria-lhe o negro corpo lustroso, e a cada instante eu pensava que ela tratava de o desencantar. Pensava que ela era Circe, pensava coisas sobrenaturais, pensava que aquele grande corpo ia cair num dado momento como um pesado vestido, um disfarce, um esconderijo, uma praga – e de dentro da Fera surgiria um moço delgado e louro que ajudaria a descer do cavalo a jovem amazona e a conduziria, pela praça, de braço dado, ao som da música, sob uma chuva de flores…
Mas via apenas a grossa pasta de sangue brotando das feridas abertas. Ai! como braçadas de cravos vermelhos sobre cetim negro. E a Bela dançando a sua fina dança de anjo e de naja. Os peões sumiam-se. A arquibancada apagava-se. Embaixo e dos lados tudo era como em cima: cinza de nuvens. Só existiam a Bela e a Fera.
*
*
Depois, ela mudou de jogo. Passou a lançar-lhe farpas agudas, de onde se desenrolavam longas fitas de papel de todas as cores. O corpanzil negro já estava muito furioso. O touro resfolegava desesperado. “Por que não te desencantas depressa?”, perguntava-lhe o meu pensamento. Mas seu corpo ia sendo uma ilha negra, toda sulcada por vagarosos rios vermelhos … “Ainda que morresses, valia a pena desencantares-te! Não serás mais a Fera. Nunca mais terás esses olhos ardentes mas cegos. Nunca mais te ferirão assim, para te despertarem, pois estarás para sempre iluminado e vigilante!” Agora, porém, ele já tinha todas as bandarilhas de um lado e de outro, e era uma festa para aquela gente a ondulação das fitas coloridas na ponta das farpas cravadas no touro negro.
A toureira sorria vitoriosa. Como seria o seu rosto se o milagre se desse, e a Fera se transformasse num homem ou num santo?
*
*
Não havia mais nada a fazer senão tourear.
Ela estendeu a capa. Asa vermelha e negra. O touro não entendia nada de asas. Aquele não era o touro enigmático da Assíria … Seu único mistério ia acabar agora, e já estava suspenso entre o vermelho da capa e a cintilação da espada.
A Bela era delgada, branca e loura. Ficava mais loura e mais branca e mais delgada perto da grande Fera negra. Ficava mais pura junto às fontes de sangue que lhe abrira no corpo fatigado. Mais fria diante da fumaça que estertorava em suas narinas. E, no entanto, a Fera agonizante a procurava-a. Que desejava a Fera? Desejava morrer ou desejava matar? Pedia-lhe que a acabasse de liberar, ou queria destruí-la com as pontas dos chifres?
A Bela dançava com a espada e a capa. Que desejava a Bela? Desejava matar? Desejava dar outra vida? Desejaria morrer? Provocava o moribundo. Oferecia-lhe seu corpo de flor, seu corpo de santa gótica, tão leve. A Fera projetava-se e encontrava apenas a asa vermelha da capa aberta.
E esse era o bailado da morte. E a multidão toda muda esperava como um tributo a sua vítima. Qualquer das duas. E a morte mirava a Bela e mirava a Fera.
Então, a Fera decidiu-se: vergou a cabeça, para levantar nos ares o corpo delgado e branco da loura santa gótica.
Então, a toureira decidiu-se: e cravou-lhe a espada, num golpe certeiro.
A Fera caiu como de joelhos. Dos rios de sangue do seu corpo iam rolando cravos encarnados cada vez maiores. A arena encheu-se de um acre perfume de jardim fantástico.
A toureira cumprimentava para um lado e para o outro. Tinha dezessete anos. Delgada, branca, loura. Saíam chispas de estrelas dos seus olhos azuis.
*
*
A multidão uivava, berrava, rosnava. A Fera morrera em silêncio. Já ia sendo arrastada para fora da arena, coberta das flores que enroxeciam sobre a sua imóvel negrura, ainda palpitantes e quentes.
Os homens e as mulheres arrojavam chapéus, flores, casacos, cigarros, despojavam-se de tudo sobre a arena.
O outro devia estar perguntando ao companheiro: “Então, ainda tens o relógio?” Uma senhora americana desmaiou. Abanaram-na com um lenço.
A toureira desapareceu.
As nuvens continuaram a correr pelo céu.
*
*
O segundo touro, esse era cor de bronze. Esse entrou pela arena adentro bufando fogo, à procura da Bela. E a Bela saltou na sua frente, do mesmo modo, como um anjo de tentação.
Esse não vinha de olhos vagos, mas de olhos resolutos, e tinha movimentos bruscos de arremesso para o cavalo que piruetava aqui e ali.
Esse parecia realmente sanguinário, e possuía a vida noção da força e do seu castigo.
Mas a lança da Bela picou todo o seu corpo, e fez nascerem novos rios vermelhos … As mãos da Bela atiraram-lhe novas farpas, enchendo os ares de listras de todas a cores … Quando a espada da Bela se cravou na sua nuca, ele levantou a cabeça robusta e partiu-lhe a espada.
Foi quando a Bela empalideceu. Tornou-se um marfim seu rosto, e sua mão, no ar, se abriu.
A morte encostou-se tanto à Bela, que toda a multidão estremeceu. Todos viram morrer, pálida, os cabelos de outro jorrando, desmanchados … A multidão respirou, sorvendo a imagem da sua vítima.
Aconteceu, porém, que uma nova espada surgiu na mão da toureira. E a morte desprendeu-se do seu peito e abraçou a Fera, que caiu, toda lânguida, para descansar da luta contra a Bela, envolta no veludo de sangue que ia descendo do seu corpo de bronze.
*
*
Lembro-me do rosto branco e azul da toureira. Da sua trança de ouro. Do seu sorriso. Tinha os dentes unidos, numa fila perfeita, e os lábios de fita fina.
Lembro-me do touro negro e do touro de bronze, deitados de bruços, levados para fora da praça, vencidos, arrastados numa prancha… Lembro-me daquele cheiro de sangue, pastoso e forte.
Murmurava comigo: “A Bela e as Feras … a Bela e as Feras …” Em seguida, as Feras desapareciam. Em seguida, desaparecia a Bela … Depois, tudo se misturava. A Bela sorria com o corpo morto das Feras … As Feras choravam no corpo vivo da Bela …
***
(Rio de Janeiro, A Manhã, 23 de outubro de 1941)

“Lutem, jovens!” Mais um dia de protesto na Romênia.

 

“Lutem, crianças, lutem!”

Essa senhora romena deu uma mensagem poderosa para os jovens do país.

“Não desistam”.

Estamos no quarto dia de protesto, em sua imensa maioria pacífico – 300.000 pessoas nas ruas ao redor do país e outros milhares fora dele – naquele que já é a maior manifestação na Romênia desde a queda do comunismo em 1989.

A lei que facilita a prática da corrupção foi aprovada, na terça-feira (31/01) à noite, sem dar informação sobre ela, lá pelas 22h …  e à meia-noite já milhares de romenos estavam nas ruas para protestar, apesar das temperaturas negativas de inverno.

Vamos Romênia! Estamos com vocês nessa luta contra a Corrupção.

A viagem interior por Luis Carlos Lisboa

“O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa – aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa – não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.”

 

– Luis Carlos Lisboa.

 

Preciosa citação encontrada no sempre excelente e recomendadíssimo blog Odepórica.

 

Trilha pelas montanhas romenas, 20016. Foto: Davi Carneiro.

Interrelationship, By Thich Nhat Hanh

Interrelationship

You are me, and I am you.
Isn’t it obvious that we “inter-are”?
You cultivate the flower in yourself,
so that I will be beautiful.
I transform the garbage in myself,
so that you will not have to suffer.

I support you;
you support me.
I am in this world to offer you peace;
you are in this world to bring me joy.

– Thich Nhat Hanh

From “Call Me by My True Names: The Collected Poems of Thich Nhat Hanh,” Parallax Press

 

A estrada e o menino

Acabei cochilando em algum momento do trajeto. O ônibus cruzava a cordilheira dos Atlas e eu ia num assento da classe mais barata, com pouco espaço, pegado na janela e sem conseguir esticar direito as pernas.

Era domingo pela tarde. O caminho serpenteava montanha acima; íngreme e perigoso. O ônibus pingava a cada dez minutos; de vilarejo em vilarejo. Éramos poucos passageiros. Lembro-me de uma senhora de rosto enrugado e mãos calejadas; lembro-me de homens barbudos empapados de suor; lembro-me das mulheres berberes e da confusão criada por um rapaz que subiu acompanhado de pelo menos uma dúzia de galinhas.

Pela janela, viam-se nuvens grandes que se alastravam lentamente. Havia uma certa luz dominical no ar e o céu, muito alto e despejado, era de um azul profundo. O sol iluminava as montanhas ao redor e elas pareciam brilhar. Fazia muito calor. Pus o fone de ouvido e consegui abrir uma fresta na janela. Adormeci encostado na poltrona vizinha.

Quando acordei, um novo passageiro havia sentado ao meu lado: devia ter uns sete anos, era moreno, magrinho, e me olhava com uma cara entre a timidez e a curiosidade. A mãe estava no banco detrás e ia distribuindo um pacote de biscoitos entre os irmãos, quatro no total; todos mais novos do que ele. Cada um teve direito ao mesmo número de guloseimas.

Meu vizinho ficou parado por alguns instantes, me mirando; os olhos grandes e escuros, exatamente como duas bolas de gude; depois pegou uma bolacha e mastigou com vontade. Fiz positivo e dei um sorriso. Ele continuou me encarando, meio receoso, até que pareceu ganhar coragem, esticou a mão e me ofereceu um dos biscoitos que lhe cabia.

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Agradeci, surpreso; e, como retribuição, puxei a câmera e fiz um registro. Ele gostou. Quis outra fotografia. A mãe, que vestia um turbante azul, o repreendeu em árabe. Fiz um gesto com a cabeça: “não tem problema, ele não incomoda”. E, pouco a pouco, o garoto foi deixando a timidez; quis ver todos as minhas fotos, fez pose e careta, tirou retrato meu, da mãe e dos irmãos. Durante a próxima hora, eu e aquele menino fomos melhores amigos, sem ao menos dizer uma palavra em comum.

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Viajar é colocar em prova a nossa confiança no ser humano. Somos obrigados a acreditar na honestidade de pessoas que não conhecemos; estar sujeito à sua amabilidade e decência, muitas vezes sem o idioma ou qualquer outro traço cultural em comum. E, muitas vezes, nós, os viajantes, somos e menosprezados e enganados. A viagem, assim como a vida, está repleta de mentiras e ilusões.

Mas, ao mesmo tempo, o ato de viajar é uma espécie de otimismo em movimento. O viajante segue em frente. Se hospeda na casa de estrangeiros. Vive entre eles. Come da sua comida. Escuta das suas opiniões. Os viajantes são otimistas por natureza, pois caso contrário, não sairiam de casa. O deslocamento implica esperança e seguir viagem, por si só, é renovar nossa crença nas qualidades humanas.

O pacote não era grande, acabou rapidinho; mas o menino havia guardado a última bolacha. Ele me olhou de canto de olho e fingiu que ia comer de uma só mordida. Porém, sorrindo, acabou oferecendo-me novamente. Aceitei o ato generoso; não sem antes repartir pela metade. Não haviam diferenças entre aquele que dava, aquele que recebia e o presente propriamente dito. Comemos juntos o último pedaço.

O ato de viajar é uma espécie de otimismo em movimento. O viajante segue em frente. Se hospeda na casa de estrangeiros. Vive entre eles. Come da sua comida. Escuta das suas opiniões. Os viajantes são otimistas por natureza, pois caso contrário, não sairiam de casa. O deslocamento implica esperança e seguir viagem, por si só, é renovar nossa crença nas qualidades humanas.

O ônibus se deteve em um dos muitos vilarejos ao pé da montanha. Era o momento da família descer. A mãe se levantou, trocamos olhares e ela disse algo, desta vez com a voz cheia e quente. O menino ficou por último, levantámos-nos e abraçámo-nos. Uma luz suave cobria o aglomerado de casas pobres feitas de terra batida. Eles seguiram lentamente por um caminho de areia e pó. O motorista descreveu uma curva e começamos a sacudir montanha acima. E eu fiquei a agitar a mão até que o ônibus voltasse à estrada em direção à Marrakech.

 

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Somos todos imigrantes

Tinha vinte e oito anos e vendia girafas de madeira sobre uma manta estendida. Nos encontramos em frente à Piazza della Signoria em Florença. Perguntei de onde ele era.
 
– De lugar nenhum … – respondeu.
– Como é isso?
– Muitas vezes, é preciso nascer em um determinado lugar para ser tratado como ser humano. Prefiro continuar assim, sem país …
 
Ele se chamava Amadou e era um rapaz alto, atlético e de pele muito escura. Trazia um boné em cima dos olhos e fumava um cigarro barato. Vestia uma calça jeans rasgada e um paletó enorme, herdado provavelmente de alguém mais gordo que ele. Tinha olhos grandes e, enquanto contava a sua historia, abria-os ainda mais: “Deixei a minha cidade natal e viajei até a Mauritânia, daí atravessamos o Saara durante semanas até chegar ao Marrocos. Passámos quase um ano em Tanger e cruzámos o Mediterrâneo em uma lancha de borracha.” Amadou relatava os fatos muito devagar e sempre utilizando o plural. Aquela não havia sido uma viagem solitária: mais de vinte pessoas o acompanharam até Itália.
 
Para o escritor italiano Erri de Luca, estes imigrantes são os autênticos heróis épicos do nosso tempo. “Hoje os heróis, os Ulisses, estão em Lampedusa; em Ceuta ou Melila; nos centros de internamento para os imigrantes que arriscaram a vida na busca de melhores condições. Esta é a Odisseia dos nossos dias. Em comparação, as histórias da Europa próspera carecem de sentido e de força”. De Luca versificou este drama no seu livro Solo andata: “Nostra patria è una barca / noi siamo solo andata”[“Nossa pátria é uma barca/ Nós somos só bilhete de ida”, em italiano.].
 
As luzes da Piazza brilhavam num vermelho metálico. Os turistas, apressados, seguiam em direção à Galleria degli Uffizi. Via-se um grupo de adolescentes americanos que tiravam selfies e riam. Ouvia-se, em alguns momentos, as buzinas dos carros se arrastando como as vozes distantes. A noite caia sobre Florença e o rosto de Amadou, envolvido pelo crepúsculo, era um borrão negro sobre o paletó claro.
 
“As pessoas me chamam de ilegal e de clandestino”, ele continuou, “Mas, não tomo como um insulto. Eu não tenho pátria, onde estou, me sinto em casa. É um erro se alguém pensa que um lugar te pertence. Ninguém é dono de nada, tudo é emprestado nesta vida, meu amigo”, Amadou fez uma pausa; olhava imenso Perseu de bronze de Cellini erguendo a cabeça decepada da Medusa. “Não há estrangeiros e não estrangeiros. Ao sair do ventre das nossas mães, somos todos imigrantes …”
 
Não foi possível continuar aquela conversa em meio a Piazza della Signoria. Outro africano, ao longe, fez um sinal; se aproximava a polícia. Amadou deu um pulo, recolheu os seus produtos e saiu dali o mais rápido possível.
 
(Infelizmente não tenho uma foto do Amadou, não deu tempo … na correria da polícia; mas nosso diálogo me marcou pela coerência e clareza)
 

O sorriso de Kamal

– Hello! Where you from? – me perguntou o vendedor ambulante perto da Torre Eiffel.
 
Era um jovem alto e muito negro, devia ter a minha idade.
 
– Eu sou do Brasil, respondi em inglês. – Ahhh, do Brasil!, replicou, sem deixar eu continuar a frase, numa risada clara e solta: – Salaam aleikum, my friend![Que a paz esteja convosco, meu amigo!]
 
O homem ficou calado por alguns segundos, me olhando, sempre a rir. A luz do céu de Paris era intensa e a contraluz, o azul se misturava com o negro da pele e o cinza metálico da torre.
 
Ofereci a mão num aperto:
– Eu me chamo Davi. E você?
– Sou Kamal, do Senegal.
 
Conversamos mais um pouco. Kamal do Senegal era um dos milhares de africanos que arriscam suas vidas para chegar à Europa.
Chegou na Itália numa balsa improvisada, morou alguns meses na Alemanha, antes de chegar a Paris. Um dos seus irmãos não teve a mesma sorte. Quase cinco mil imigrantes morreram no ano de 2014 nesta mesma travessia, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM); número recorde num único ano. A OIM admitiu que o número não é preciso já que muitas das mortes nem sequer chegam a ser contabilizadas.
 
– Brasil e Senegal. Como irmãos. Somos parecidos! – disse Kamal, já no final do nosso encontro, sem parar de rir, pousando a mão direita sobre o coração.
– Quais as coisas que temos em comum? – perguntei, curioso.
– Não sei muito bem como dizer em inglês.
– Apenas tente.
– Senegal e Brasil. Parecidos. Até nos piores momentos. Nunca deixamos de sorrir.

Top Manta (J. París)