As castanhas da Maria do Céu

 

“♫ … Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem compra leva mais calor p’ra casa … ♫”

A senhora cantarolava a música, baixinho, enquanto remexia a brasa em meio a fumaça branca puxada pelo vento. Maria do Céu era o seu nome, tinha cinquenta e cinco anos; vinte deles dedicados a vender castanhas na Rua das Flores no bairro do Chiado.

Não há outono em Lisboa sem o cheiro das castanhas assadas. Um cheiro adocicado que invadia os narizes e me fez recordar coisas antigas e pessoas distantes. Lembranças do outro lado do Atlântico. Cuidadosamente, Maria passou o fruto na água para tirar o pó, secou num pano e depois o colocou no fogo brando. Pedi-lhe uma dúzia daquelas castanhas perfumadas.

O ponto da Dona Maria ficava a poucos quilômetros da A Brasileira: o ilustre café literário onde Fernando Pessoa e seus companheiros fundaram a revista Orpheu e os grandes movimentos de vanguarda da Literatura portuguesa. Mais cedo, naquela manhã fria de outono, eu havia tomado um bom galão[Café típico português feito de café expresso e a espuma do leite.] em companhia da estátua de um dos meus poetas favoritos.

 

 

Depois do café, segui caminho até a Rua da Saudade que está no topo de uma das colina da cidade, onde se pode ver o imponente Castelo de São Jorge. Os turistas geralmente caminham apenas até a rua debaixo e detendo-se diante da bela catedral da Sé. Eu, que estava num estado nostálgico – ai que saudades tenho da Bahia! – segui mais adiante, poucos metros a esquerda, para ver aquela pequena viela de nome tão sugestivo (entender a saudade é entender a alma lisboeta). E do alto daquela ruazinha, o olhar abraçava boa parte de Lisboa e a foz do Tejo. E um pouco mais além, via-se o oceano Atlântico e o horizonte infinito.

 

Foi no retorno ao albergue que encontrei por acaso a Dona Maria. Fernando Pessoa na A Brasileira, a Rua da Saudade no pôr do sol (o entardecer é a hora sagrada da saudade), Maria do Céu e a Rua das Flores. Havia uma bruma suave no ar e Lisboa me pareceu, por si só, uma cidade-poema, como as cidades de Calvino, onde os conceitos geográficos se tornam símbolos da psique humana.

A data do encontro: onze de novembro, dia de São Martinho. A capital estava em festa. A tradição em Portugal manda celebrar à volta de uma fogueira, beber jeropiga, comer castanhas e entoar antigas canções. Durante a tarde, eu havia ficado ali, sentado em num banquinho, observando o tempo passar e sentindo Lisboa pelo seu cheiro. Um aroma adocicado, misturado com a fumaça, e que vinha da Praça Duque Saldanha, da Avenida da Liberdade, do Rossio, da Rua Augusta … e parecia envolver a cidade inteira.

Conta-se que São Martinho, um soldado romano, viu um mendigo seminu, pedindo esmola. Era um dia frio e de fortes ventos. O soldado, padroeiro da festa, parou o seu cavalo, cortou a capa que o protegia e a entregou gentilmente ao pedinte do caminho. Neste momento, a tempestade se desfez num piscar de olhos e o sol logo aqueceu o cavaleiro solidário. Um verdadeiro milagre. Daí a lenda do verão em pleno frio do outono.

E o outono por aqui é sinônimo de castanhas assadas. Quando veem as folhas caindo, as pessoas dizem “Oh, o verão acabou!” e as folhas já não são mais folhas; elas significam o outono inteiro. O mesmo vale, para estes frutos e os seus vendedores ambulantes, na capital portuguesas; cada um deles amplia o seu sentindo para anunciar o final do verão e a chegada da nova estação.

Dona Maria me explicou que as vendas não andavam boas. Estávamos nos piores anos da crise financeira portuguesa.

– A castanha é de boa qualidade, as pessoas gostam, só que não há dinheiro. – contou a senhora com a voz triste.

– Acabo vendendo três a cinquenta cêntimos pois os idosos dizem não podem mais comprar. – acrescentou.

A expressão no seu rosto era sóbria e um pouco vaga.
– São muitos os que perderam suas casas, suas economias com a crise … Isso parte cá o meu coração.

A vendedora deu um golpe horizontal com faca sobre a parte mais clara do fruto e o colocou para cozinhar com um pouco de erva doce e sal, que deixa sua casca como que pintada de um branco suave. Rodou a manivela para aumentar o calor da brasa. O sol havia se despedido e Lisboa foi escurecendo por graus, como num teatro.

– É uma pena, eu respondi.

A senhora permaneceu alguns minutos sem falar nada até que começou a dizer, bem devagar, num desabafo repentino:

– O meu marido partiu faz pouco mais de um ano …, sua voz saiu fraca, quase um murmúrio. – Ele não queria nem ouvir falar de dinheiro de seguro, só desejava saber de trabalhar, continuou.

– Dois anos desempregado o derrubaram, uma pneumonia o colocou de cama e a tristeza não lhe deu forças de recuperar. – Maria manteve a cabeça baixa, o olhar perdido; rodava lentamente aliança no dedo anelar da mão esquerda.

– A depressão levou um homem bom, honrado e trabalhador.

A vendedora voltou a mexer no carvão. Estava num modo tristonho de certos entardeceres. Pouco depois, recomeçou a cantar a música das castanhas, sem elevar o tom, enquanto alimentava o braseiro. O fogo foi ficando mais intenso; como se Dona Maria desejasse aliviar o frio da noite que caia sobre a cidade.

“Mas, não há de quê”, Dona Maria completou minutos depois ao me entregar a dúzia, num saquinho que custou dois euros. “Assim como as castanhas avisam o outono, continuamos esperando os sinais da primavera … que este inverno passe logo e que a sorte volte a florescer novamente para o povo português … aguentaremos firme até lá.”

E enquanto a primavera não vinha, Dona Maria do Céu continuava cantarolando em meio à fumaça que se confundia com a névoa atlântica da capital Lisboeta:

“♫ … Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem compra leva mais calor p’ra casa … ♫”,

 

São muitas as coisas que eu não lembro daquele onze de novembro, dia de São Martinho, porém, todas as vezes que penso naquela viagem à Lisboa, eu me lembro, esperançoso, da Dona Maria e do cheiro das suas castanhas.

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