A velhinha do avião

A aeronave estava prestes a decolar quando ela me segurou com força pelo braço direito.

Eu – que espiava pela janela, distraído – me assustei com aquele gesto repentino. Virei-me de imediato! Uma surpresa: era uma velhinha na poltrona ao lado. “A infância é a melhor fase da vida, né meu filho? – disse ela, sem afrouxar o agarrão. “Eu daria tudo para ser criança de novo.”

Houve um momento de silêncio; ela imóvel; me olhando, sem largar o braço, como quem espera alguma resposta da minha parte.

Não soube ao certo que tipo de resposta seria esta: estávamos num avião; não nos conhecíamos e, até o momento, não havíamos trocado uma só palavra; e eis que de repente, ela se acomoda na poltrona ao lado, me segura sem aviso e solta uma destas: “A infância é a melhor fase da vida, né meu filho?”

Tentei responder da melhor maneira possível: “Eh … Oi … Me chamo Davi e também adoraria ser criança”. Devo ter acertado, pois ela relaxou um pouco e me soltou, parecendo satisfeita. (Mais pela simpatia da resposta do que pelo fato de também desejar voltar à infância, imagino eu).

“A infância é a melhor fase da vida, né meu filho? – disse ela, sem afrouxar o agarrão. “Eu daria tudo para ser criança de novo.”

Estávamos em um voo Salvador – Rio de Janeiro e chovia muito naquele dia. Lá fora, pela janela, não se via muita coisa; somente a asa esquerda, um pouco levantada, em meio ao aguaceiro. A aeromoça era uma loira alta e oxigenada. Tinha um certo ar decadente e triste ao distribuir amendoins aos passageiros. Ouvíamos os soluços das crianças assustadas que se espalhavam por todo o corredor. Uma sinfonia de gritos, prantos e lamúrias. Levávamos mais de uma hora de atraso e nada da aeronave partir.

“Atenção senhores passageiros, decolagem confirmada”, disse o comandante minutos depois. A aeromoça triste se apressou em direção a cabine e o avião acelerou na pista molhada. O som rouco das turbinas se elevou, incômodo, misturando-se ao berreiro da molecada.

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Erguemo-nos com fluidez pela atmosfera e um horizonte imenso se abriu. Olhando pela janela, em meio a chuva, diviso a paisagem sob nova perspectiva: a pista do aeroporto, cilindros de gasolina, as dunas de areia branca, o verde cada vez mais raro na Av. Paralela, o engarrafamento caótico de Salvador e o azul sempre lindo do mar da Bahia.

A minha vizinha de poltrona estava realmente nervosa. Soltou um longo suspiro de impaciência e depois começou a se abanar com uma revista de bordo, apesar do frio que fazia dentro do avião. Tentei acalmá-la, sem sucesso. Apesar da sua aflição, era uma senhora simpática: tinha cabelo curtinho, todo branco e usava óculos grandes e redondos; tinha a pela morena e vestia-se de forma alegre, levava um crucifixo dourado e lenço azul no pescoço. Lembrou a minha avó, vaidosa e elegante, indo a uma missa de domingo.

Resolvi puxar conversa: ela se chamava Nádia, tinha setenta e cinco anos, viajava ao Rio pra visitar o neto. Perguntei o porquê daquilo sobre voltar a ser criança: É que as crianças, sim, que são felizes. Sabe, meu filho, elas são o que são, sem esconder nada. Quando querem chorar, choram”. Então, quase num sussurro, me revelou o real motivo da sua angustia: “É que esta é a primeira vez que eu ando de avião. Estou morrendo de medo! Se eu pudesse, estaria chorando, do mesmo jeito que estas crianças estão agora”.

Nós dois ficamos em silêncio: eu, surpreso, e ela com uma carinha aflita.

Minha reação foi a de colocar a minha mão direita sobre a sua mão esquerda. “Tudo vai ficar bem. Confie em mim”. E este gesto espontâneo se mostrou um eficiente remédio: a velhinha deu um sorriso de alivio e continuamos a conversar por mais alguns minutos. Depois, ela fechou os olhos, inclinou a cabeça no meu ombro e ficou quietinha, como quem tirava um cochilo.

“É que esta é a primeira vez que eu ando de avião. Estou morrendo de medo! Se eu pudesse, estaria chorando, do mesmo jeito que estas crianças estão agora”.

O avião continuou seu caminho sem turbulências. Junto à janela, lá fora, as nuvens negras abriam espaço aos raios de sol e ao céu azul. O tempo foi mudando e até as crianças aderiram a calmaria.

A vovó continuou quietinha e quando ela parecia se assustar, eu apertava a sua mão e aquilo a tranquilizava. Percebi que, aos poucos, ela foi ganhando confiança, começava curtir a experiência. Perguntei se não queria trocar de lugar, ficar perto da janela.

Sobrevoávamos algum ponto acima do oceano quando o avião atravessou uma grande uma nuvem. A vovó ficou encantada. Disse que parecia uma montanha de algodão-doce e, até mesmo, que seria o assento perfeito para um anjo ou um bonito trono para Deus.

Me peguei, graças a velhinha, apreciando também nossas companheiras, do outro lado da janela, rodando pelo ar no céu de esmalte. Há algo de libertador nas nuvens: sua fluidez e inconstância; elas nunca se parecem consigo mesmas, nem poucos segundos seguidos. Somos nós quem devemos estar atentos para admirá-las, antes que se transformem em ar transparente e se convertam novamente naquilo que nunca deixaram de ser: a totalidade do céu infinito.

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As nuvens passavam tranquilamente e chegou a hora de aterrissar. A vovó sorria, mais tranquila. Abaixo de nós, estavam amigos e familiares mas, também, os motivos de nossos medos e receios; todos eles efêmeros e impermanentes, meros rabiscos na terra quando vistos de uma perspectiva mais ampla.

“Há algo de libertador nas nuvens: sua fluidez e inconstância; elas nunca se parecem consigo mesmas, nem poucos segundos seguidos. Somos nós quem devemos estar atentos para admirá-las, antes que se transformem em ar transparente e se convertam novamente naquilo que nunca deixaram de ser: a totalidade do céu infinito”.

No aeroporto, enquanto esperava a bagagem, vi mais uma vez a minha vizinha de poltrona. Estava com um rapaz alto e moreno, seu neto provavelmente. Se aproximaram com olhar agradecido. Ele ficou bastante tempo esperando devido ao atraso e imaginava quanto incômodo me dera sua avó, sempre nervosa. “Ora, não houve problema nenhum.” Apertámo-nos as mãos. Ela me deu um beijo na bochecha e se despediu com um sorriso cúmplice.

“Um pequeno ato de gentileza pode significar muito”. Somos capazes de entender suficientemente bem o significado desta velha moral. Porém, raras vezes, ela me pareceu tão verdadeira quanto naquele momento em que eu estava distraído, junto à janela fria do avião, e uma velhinha, os seus medos e as nuvens acabaram se convertendo em sábios mestres de uma delicada filosofia.

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