A neve em Verona

Era uma noite fria em Verona quando eu dividi um táxi com o Erik e a Alicia, um casal de namorados; ele era norueguês e ela, da Venezuela.

Os dois moravam em São José, na Costa Rica, mas haviam se conhecido em Quito, capital do Equador.Visitavam pela primeira vez a Itália.

Lembro-me que nevava muito naquela noite. Eram os primeiros flocos de inverno e a cidade estava envolvida pela penumbra vespertina. Uma bruma fina pairava no ar e a neve caia lentamente, grossa e corpulenta; girava ao redor dos postes recém-acesos, se estendia numa camada branca sobre os telhados, os carros e os ombros dos transeuntes.

O motorista do táxi era um italiano maduro e de cabelo grisalho, chamado Josep. Ele fazia ponto perto da Casa da Julieta, um dos pontos turísticos mais visitados de Verona. “Há anos que não via tanta neve por aqui”, ele comentou. “Acho que a cidade fica ainda mais bonita e romântica”. Acabei concordando: a experiência de caminhar por suas avenidas, em uma noite de inverno, bem que poderia levar alguém acreditar na veracidade da história de William Shakespeare.

Quando entraram no táxi, o Erik e a Alicia discutiam. Ele havia decidido voltar para o hotel, estava aborrecido por causa do mal tempo. Ela, por outro lado, parecia fascinada; queria ficar pelas ruas, sem rumo, passeando pela Verona noturna.

O táxi seguiu caminho e os dois continuavam se contradizendo. “Este tempo estragou o passeio”, ele dizia. “Não saí da Noruega para sentir frio!” Alicia insistia e argumentava. Somente depois, contou o motivo real da sua empolgação: “Por favor, Erik! É a primeira vez que eu vejo a neve …”

Os dois perguntaram a minha opinião sobre o assunto, se eu preferia estar ali com ou sem o frio, e admito que não soube muito bem o que responder. Havíamos nos conhecido há poucos minutos, debaixo da sacada da Julieta, e não me senti confortável para intervir numa discursão de casal. Acabei murmurando algo sobre “aproveitar o momento, pois ele não ia se repetir novamente” ou alguma outra coisa do gênero.

Baixamos do táxi perto do nosso hotel. Eu tinha alguns assuntos pendentes, dei boa noite e subi para o quarto. Mas, antes disso, lembro-me de ter visto os dois caminhando, rodeados pele neve, em direção à Catedral de Verona.

Alguns anos mais tarde, revirando o meu caderno de viagens, deparei-me com uma frase, já esquecida, que eu havia escrito junto à data daquela viagem: “Uma noite fria de nevasca / Não é feia, nem bonita / Não é boa e nem ruim / A noite é puramente / Como nos propomos a enxergá-la.”

 

 

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